J. Rentes de Carvalho: "Perdi muito cedo a ingenuidade porque comecei a ler"

A entrevista com o escritor mais português da Holanda realiza-se num dia tórrido em Trás-os-Montes. A temperatura oscilava entre os 35 graus fora do vale onde fica Estevais e os 45 graus na localidade. Há um ou outro habitante na rua, sentados em cadeiras à sombra das casas, mas pouca é a gente que abandona o fresco da residência. Afinal, Estevais localiza-se ainda depois do fim do mundo, mesmo que o acesso desde Lisboa seja quase integralmente por autoestrada.

Uma terra onde se pode beber um bagaço a qualquer hora mas não comer umas sandes nos cafés locais. Quando se entra no único estabelecimento que está aberto, o famoso 007, é preciso esperar alguns minutos até que a patroa dê pelo cliente. O pior é quando se pede alimento e o "não há nada" surge como imediata resposta. Engole-se em seco o que se gostaria de responder prontamente à senhora e lamenta-se a ausência de experiência gastronómica em Estevais. Tudo em silêncio, para não deixar o escritor malvisto entre os seus pares. Nem é preciso perguntar onde fica a casa de J. Rentes de Carvalho, porque um carro com matrícula holandesa denuncia-o. Fica na rua paralela à principal, que termina num chafariz e ao fundo tem o cemitério, com vista para a serra de terra avermelhada e seca, com árvores aqui e acolá. É uma casa amarela, que pertencia ao avô materno e que em 1999 estava a cair aos bocados. Então, o escritor decidiu com a família recuperar a ruína e ao mesmo tempo homenagear o antepassado. Se o fizesse, mantinha-se o vínculo com Portugal; se não a reconstruísse, era a despedida definitiva. A decisão pela positiva fez que o casal passasse a vir ver as obras a cada três meses e tornasse rotina essa vida dividida entre Estevais e Amesterdão. Uma entrevista sem pressa, afinal Rentes gosta de conversar.

Está de partida para a Holanda. Leva alguma coisa nova desta estada em Estevais?

Não, levo sempre o mesmo sentimento de ao fim de um tempo ter necessidade de voltar à Holanda. E, estando na Holanda, tenho necessidade de voltar a Trás-os-Montes depois de um tempo. Daí que tenha criado esta rotina em que se alterna três meses aqui e outros tantos na Holanda.

E a família tem paciência para vir a Estevais e ficar cem dias?

É um ambiente muito diferente, mas é a mesma casa, aqui ou em Amesterdão. São apenas dois modos de vida social e familiar totalmente diferentes. Aqui não tenho família nenhuma, além de uns primos em 6.º ou 7.º grau. Eu sou o último, a minha família agora é de holandeses... Sou o último e, na família, o único português serrano.

Então, a prole Rentes de Carvalho acaba consigo?

Se me acontecer morrer aqui, enterram-me aqui. Se me acontecer morrer na Holanda, fazem à boa maneira holandesa: umas cinzas e espalham-nas por aí e pronto.

Este é um assunto um pouco mórbido para estarmos a falar...

Não é, não!

É-lhe indiferente ficar num lado ou ficar no outro?

Indiferente... Totalmente, não é. Mas veja o dilema: ou tenho aqui um pedaço de terra onde não nasci mas fui gerado - porque fiz as contas, os meus pais casaram-se em agosto e eu nasci em maio, portanto, são nove meses certinhos, mesmo que tenha ido nascer a Gaia.

É uma questão sentimental?

Desde que me conheço foi sempre o lugar para onde gostava de vir. Às vezes, passava aqui grandes temporadas em miúdo e nas férias vinha aqui sempre. Quer dizer, é um lugar muito, muito, muito querido para mim. Amesterdão é o lugar onde vivo há 60 anos e tenho família. Onde me sinto tão à vontade como se tivesse nascido lá.

Durante muitos anos foi impedido de voltar a Portugal?...

Estive 14 anos sem vir. Não tinha o direito a regressar ao país porque seria preso ou qualquer coisa no género. Mas isso é história velha, é história passada.

Na altura achou mesmo que poderia ser preso?

Nem por isso, porque se eu tinha muitos amigos comunistas, tudo rapaziada do liceu, também havia o meu pai, que tinha um amigo que era inspetor da PIDE. E ele, sendo amigo de seu amigo, disse: "Tenha cuidado, meu rapaz. É melhor que se vá embora, porque senão pode acontecer-lhe alguma chatice." Quer dizer, havia a possibilidade de acontecer e naquele tempo não havia garantia nenhuma de sossego pois a polícia podia fazer o que quisesse.

Atividades políticas?

Não, era por simpatia. Eu não tinha e não tenho atividades políticas.

Era só por causa das amizades?

Exato. Nunca entrei em partidos, não pertenço a partido nenhum, não sou de partidos. Mas a maioria dos meus amigos era comunista.

Quando diz que não tem partidos significa que hoje não vota?

Já votei algumas vezes mas, francamente, tenho uma certa aversão a esta política portuguesa de dois partidos, em que ora manda um ora manda outro e, ao fim e ao cabo, mandam sempre as mesmas pessoas. Essa bipolarização desgosta-me bastante porque se na aparência são inimigos, a verdade é que uma mão lava a outra.

Depreendo que vai acompanhando a vida política por cá. É assim?

Acompanho muito a vida política desde sempre e tenho muito interesse, mas como observador e não como participante.

Agora que temos este exemplo da Grécia, não acha que pode servir de exemplo à bipolarização?

Não. As coisas poderiam mudar se quem manda realmente - o dinheiro, os bancos, o Fundo Monetário Internacional, quem protege as grandes fortunas -, se isso mudasse... Mas não muda, porque não há uma força de base que altere a sério a sociedade portuguesa ou as outras. Não há e não muda.

Desgosta-o ver esta realidade?

Vivo num país [Holanda] muito próspero, onde as pessoas pagam os impostos e estão convencidas de que o Estado ou o governo não está ali para os fazer sofrer mas para fazer o melhor possível. Claro que há corrupção, não à boa maneira grega ou portuguesa, pois não são super-homens mas gente.

Aqui em Estevais, a maioria das pessoas nem deve votar!

A maioria das pessoas vota, sim.

Votam?

Vota, vota. Mas é a mesma bipolarização: umas votam para o PSD, as outras votam para o PS.

Já vi que o senhor é muito conhecido por aqui, porque quando entrei na aldeia perguntei onde é que vivia e disseram-me: "Eu já o vi ali há pouco, está em casa."

Só há 80 pessoas.

Como é que o olham, como uma pessoa da terra?

Sim, sim. Eu sou tão da terra que até me chegam a odiar.

Odiar!?

A odiar, a invejar; simpáticos uns, os outros... também simpáticos. É a vida das pequenas aldeias.

Sabem que é escritor?

Isso alguns já sabem.

E têm curiosidade em o ler?

Curiosidade, não. Mas são bastantes aqueles que têm os livros em casa para ver se estão lá. Só que não se descosem, nem gostam de mostrar que estão contentes. É um pouco a história de quando o Mário Soares foi ao Vaticano e as pessoas perguntavam: "Quem é aquele sujeito de branco que está ao lado do Mário Soares!?"

Afinal, Mário Soares já tinha estado em todos os lugares antes de Deus... Inspira-se nestas pessoas?

Eu não me inspiro, tomo nota. São uns apontamentos.

Vamos usar a palavra inspirar para facilitar...

Entre aspas.

"Inspiram" mais hoje em dia ou há uns anos "inspiravam" melhor?

Talvez deva responder de outra maneira. As pessoas eram diferentes e mais ingénuas. Atualmente, estão mais ao corrente da vida e perguntam-se: "Como é que me devo apresentar?" O que antigamente não acontecia porque a pessoa era e agora a pessoa faz-se.

O que tem muito que ver com as personagens de ficção...

É um pouco assim. Devido à televisão, têm uma grande consciência de si próprias, da sua atitude e da sua posição. Há, talvez, aqui quatro ou cinco pessoas entre as poucas dezenas que ainda são da cepa antiga. Mas o geral não.

E no seu caso, mantém-se ingénuo ou também já a perdeu?

Eu nunca o fui. Perdi muito cedo a ingenuidade porque comecei a ler bastante e muito cedo - por volta dos 8 anos -, mesmo que não soubesse o que lia. Era como quem absorve material sem saber o que aquilo é. No entanto, por volta dos 14 anos já tinha uma consciência política muito desenvolvida para a idade e para o tempo. Até uma consciência social muito forte pois nasci num lugar muito pitoresco de Vila Nova de Gaia, a que chamam Monte dos Judeus. É uma ilhazinha de casas no meio dos armazéns de vinho do Porto, onde havia uma fauna muito especial de pessoas: dois ricos que eram os donos da estiva, uma família Cockburn, uma classe média modesta, prostitutas, embarcadiços e pescadores. Na parte da frente da casa, olhava-se para o Porto; nas traseiras, olhava-se para a Idade Média. Isso deu-me muito cedo uma visão particular da sociedade, porque convivia com as classes sociais todas.

Portanto, a PIDE tinha razão em andar atrás de si...

Tinha, mesmo que eu não fosse capaz de pertencer a partidos. A minha natureza não dá para isso.

Os seus romances não têm uma preocupação política, mas aquele diário da Foice (Portugal, a Flor e a Foice) é eminentemente político!

Aquilo é mais uma reportagem, um apanhado de um período muito mais longo do que está descrito no livro. Eu comecei a contactar com a oposição democrática portuguesa por volta de 1961, em Paris. Via toda aquela gente chegar, funcionar e não gostava. Vendo a naturalidade com que mostravam os interesses e as alianças que faziam, disse: "Esta gente não é séria." E provou-se que não, mesmo que tenha demorado 40 anos que andavam simplesmente à procura do tacho. Então, o livro começou a ser escrito não em 1975 mas aproveitando o material desde 1964.

E conheceu o Álvaro Cunhal nesses tempos de Paris?

Não. Isso também não era gente do meu círculo de ação. Cheguei a Lisboa no dia 26 de abril de 1974, um dia depois da Revolução e fiquei por aqui até novembro de 1975. Corri o país todo e pensei: "Isto não está a correr bem."

E como é que conseguiu vir logo a 26 de abril, tão rápido?

Tinha uns amigos maoistas na RTP que estavam muito ao corrente do que se passava, creio que tinham muitas informações dos Serviços Secretos americanos. Nesses dias estava uma esquadra da NATO fundeada no Tejo, só que na noite anterior houve uma senhora - que agora vive no Canadá - que me telefonou e disse: "Ó José, a esquadra da NATO levantou âncora e vai-se embora. Isto deve ser amanhã." Eu até poderia ter chegado antes se não fosse preguiçoso. Preferi esperar para ver se havia revolução.

Recentemente, publicou um diário, Pó, Cinza e Recordações, mais voltado para a sociedade. Qual é o ângulo de que gosta mais?

Não tenho preferências, simpatias especiais, nem planos sequer. Não tomo notas, não tenho projetos, vou trabalhando as coisas na cabeça até chegar a hora de escrever. Esta é a parte mais fácil, tanto se me dá escrever um conto como um romance. É uma questão de mais ou menos tempo, é uma questão prática. Não posso dizer que penso os livros.

Escreve o que lhe apetece ou faz um plano mínimo?

Às vezes parto de uma frase ou de uma cena e desfia-se o resto. Pode parecer pedante o que estou a dizer, mas o que acontece é que conto a história a mim mesmo a ver se agrada. Depois, é uma questão de alinhavar e pôr as palavras certas no lugar certo e pronto.

Qualquer lugar serve para pensar os seus livros?

É-me totalmente indiferente. Pode ser na rua, pode ser em Amesterdão, pode ser no cinema.

Gostou de ter José Saramago como o primeiro a escrever uma crítica em Portugal sobre os seus livros?

Sim, foi ao Montedor. Esse livro tem um nascimento muito particular. Estava em Amesterdão, escrevi aquilo e o meu amigo Joaquim Novais Teixeira leu o manuscrito. E depois não aconteceu coisa nenhuma, não disse que tinha recebido, não disse se tinha gostado... Fiquei à espera uns meses e, como nada acontecia, fui esquecendo o livro até que um dia chega um embrulho de Lisboa. Abri e, para minha grande surpresa, era o livro impresso. Esse meu amigo tinha-o mandado para a Prelo, que era do Partido Comunista, a antecessora da Editorial Caminho, e eles imprimiram aquilo. Claro que nunca vi um centavo mas mandaram-me 20 exemplares.

Foi aí que apareceu a crítica do Saramago?

A crítica do Saramago foi espetacular mas teve uma consequência: no segundo romance, O Rebate, os críticos apontaram as baterias: "Esse sujeito não sabe conjugar verbos, não conhece a gramática, não é capaz de contar uma história." Simplesmente aconteceu que uns oito anos depois o livro é editado na Holanda e todos dizem: "Obra-prima!" Ou seja, é tudo um bocadinho tristonho.

Os portugueses também eram mais pacóvios?

As pessoas não entendem, o que lhes hei de fazer? Diziam que eu estava 40 anos avançado. Ou se acompanha a sociedade em que se vive ou paga-se por andar um bocado mais à frente.

É o que se passa no livro Foice, que irrita muita gente?

Onde é que se irritou, diga-me lá!? Se calhar ainda sou capaz de o irritar mais quando lhe disser que não houve revolução.

Não me irrita.

Houve um teatro, mas vai demorar ainda uns 50 anos e é preciso que haja historiadores sem filiação partidária e sem interesses materiais para se escrever a História. Havia gente, que eu conheci em Lisboa, que eram os motores secretos do movimento revolucionário e que nunca os vi mencionados em jornal ou conversa nenhuma. É como se aquela gente não tivesse existido, mesmo que fosse muito importante dentro da sociedade lisboeta. Eu ouvi na Estação de São Bento, no Porto, uma vendedeira de jornais a dizer a grande verdade: "Ó menino, a merda é a mesma, as moscas é que são outras." Uma mulherzinha do povo, sem instrução nenhuma. Enfim, quando puder ser escrita a história do 25 de Abril, então as pessoas vão ter uma visão totalmente diferente dos antecedentes e de como foi bem preparado. Só posso dizer que não foi coisa de amador.

E o papel dos militares?

Os militares foram simplesmente joguetes e sem se darem conta. Mas houve forças muito importantes que aproveitaram a mentalidade dos militares, o aborrecimento por não poderem ser promovidos e o medo de que os milicianos lhes roubassem o lugar. Psicologicamente, isso foi extremamente bem aproveitado, dando a todos - a eles próprios e ao povo - a ilusão de que ia haver uma mudança grande no país.

Que forças são essas?

São forças díspares, sobretudo as das grandes fortunas.

Voltemos à literatura. Gosta de ler os contos do brasileiro Dalton Trevisan...

É verdade, leio o Dalton Trevisan por conselho de um colega da faculdade desde 1962. Ele apareceu-me com um livrinho, Guerra Conjugal: "Pega. Lê isto." Era um holandês muito competente, muito conhecedor de língua portuguesa e da literatura brasileira. Levei o livro para casa e fiquei fascinado.

Porquê?

Não só porque o Trevisan é um formidável contador de histórias mas porque tem um poder de síntese inigualável na língua portuguesa e brasileira. Põe duas ou três palavras juntas e fica a história pronta. É tão poupado que até mete medo.

Existem outros autores que goste de ler dessa forma?

Claro! Sou um leitor maníaco, leio de tudo, mesmo que tenha as minhas preferências. De colegas não falo. São todos bons.

Não fala de colegas portugueses?

Não. São todos bons. Não me meto nas vaidades e nos talentos de cada um, deixá-los lá. Nesse particular, sou muito estrangeiro e eles são de cá.

Portanto, acha que a nossa literatura está melhor do que nunca?

Quando aqui há 20 anos houve Les Lettres Portugaises em França, com um grande espalhafato porque os portugueses eram os melhores do mundo, quem tem um pouco de espírito crítico ouve, sorri e perdoa. Hoje, as pessoas têm mais possibilidades de fazer marketing, divulgar pelo Facebook, é um mundo totalmente à parte.

Hoje é mais fácil ter sucesso?

Sim, até a nível material.

Tem algum escritor da nova geração que o tenha espantado?

Não tenho.

Acha que esta nova geração ainda precisa de aprender o português?

Não sei e, com toda a sinceridade, não me interessa, tal como a literatura holandesa não me interessa.

É verdade que António Lobo Antunes que está a ter muito sucesso na Holanda?

Não faço ideia. Não faço ideia.

Mas gosta de o ler?

Não. Creio que li a Memória de Elefante e chega.

Portanto, a nível de língua portuguesa, os preferidos serão...

... Os mortos e arrumados. Eça de Queiroz e Camilo, brasileiros como João Guimarães Rosa. Quem não sabe quem é Guimarães Rosa está muito mal. Tenho grande respeito por todos aqueles que escrevem e pelos que fazem um grande esforço por se manter na escrita, pois não é fácil. Quem vive da escrita é numa espécie de escravatura.

Sente que faz parte da classe dos escritores?

Não a conheço.

Faz questão de não fazer parte?

Sim, sim, sim. Nunca fiz. Nem aqui nem na Holanda. Sou eu.

Na Holanda, os seus livros foram sempre best-sellers e vendem-se aos milhares...

Sim, centenas de milhares.

O que encontram os holandeses nesses livros? Identificam-se?

Acho que tenho talento. Primeiro, todo o leitor consciente sente logo a sinceridade. Se não for sincero naquilo que se escreve, se não vier mesmo de dentro, se estiver a "pintar", o leitor sente que aquilo não é genuíno. Creio que nos meus livros passa - pelo menos, tenho essa intenção - esse aspeto de genuinidade. É uma ficção que vem muito de dentro e trabalhada e com muito respeito por quem me lê.

O ser genuíno consegue-se no primeiro ou segundo livro, mas ao décimo não é preciso forçar um pouco para continuar genuíno?

Se se mantiver fiel a si próprio, continua a ser a mesma pessoa e com o seu fito. Claro, há quem se meta a fazer só uma espécie de romance a vida toda e vai fazendo sempre o mesmo livro.

No seu caso, diverge. Mentiras & Diamantes é uma história num registo que não lhe é habitual?

Porque eu gosto e por perguntar a mim próprio se sou capaz de fazer isto e aquilo. É um desafio... A palavra desafio está um pouco abusa-da pois toda a gente tem desafios. É uma maldade e uma rasteira que que gosto de me fazer: Serei capaz?

E só publica se gosta do que fez?

Só. E depois de muitas vistas e revistas. Sou um bocadinho chato nisso.

Escreve à mão ou no computador?

Escrevi à mão até aos 15 anos. Em 1946, um amigo do meu pai que vivia em Nova Iorque veio pela primeira vez depois da Segunda Guerra Mundial à aldeia e perguntou o que poderia trazer-lhe. Escreveu: "Então? Tens um rapaz. O que é que eu lhe posso levar?" E o meu pai diz: "Traz-lhe uma máquina de escrever." Por isso a minha caligrafia hoje em dia é um desastre.

Em 1946, ter máquina de dactilografar não era para qualquer um?

Não era. Durante a minha vida profissional de jornalista tive muitas outras, umas Baby e umas Olivetti Lettera. Devo ter estragado não sei quantas, pois duravam dois ou três anos e desfaziam-se. Ainda tenho umas duas ou três que guardei.

E o computador?

O meu primeiro computador foi em 1988 e desde então nunca o larguei.

Simplifica o método criativo?

Sim, e tecnicamente é muito bom porque tenho muito cuidado em não fazer repetições, coisa que se verifica no computador facilmente em vez de, como antigamente, andar à procura das palavras repetidas.

Para um contador de histórias nato, o computador não lhe espreme a liberdade narrativa?

Não. O computador é uma máquina, não faz coisa nenhuma. Eu é que mando, as palavras são minhas, só me facilita a vida.

Destes seus livros todos, tem algum que seja o seu preferido?

Tem filhos? De qual é o que gos-ta mais... Não tenho preferência nenhuma, haverá um ou outro em que digo: "Podia ter feito melhor assim ou assado." No entanto, quando o livro sai cá para fora é obra acabada. Não lhe mexo mais.

Um dos seus livros que mais surpreenderam o leitor foi Com os Holandeses. Porquê o sucesso...

...Gigantesco, fora do comum. A grande diferença de mentalidade entre holandeses e portugueses é o facto de que se nos criticam vamos lá dar uma bofetada; o holandês, se é criticado, pega naquilo e questiona se é verdade. E vão ler, como aconteceu com esse livro, onde eu era diplomático mas dizia o que pensava do país e das pessoas com franqueza. Eles gostaram e o livro ainda hoje se vende - desde 1972 -, chegou a fazer capa nos jornais e a ser falado durante mais de um ano. A única reação negativa que tive ao longo de 40 e tal anos foi de uma senhora grega que escreveu para um jornal e disse. "Se esse sujeito não gosta de estar na Holanda, que vá agora para Portugal." Uma grega!

Também escreveu um guia sobre Portugal, outro sucesso!

Esse é uma coisa pessoal. O meu editor holandês vinha muito a Portugal e era amigo do Alain Oulman, que escrevia fados para a Amália. Um dia, disse-me: "Eh pá, estive agora em Portugal e é um país desgraçado. É pobrezinho, umas mulheres com aqueles xailes pretos na cabeça, é feio, é triste como o Diabo." E eu, consciente da pobreza do meu país, disse que o país era mais do que isso e ele desafiou-me para escrever um guia sobre Portugal. Disse que sim. Exigi fazer a capa e umas viagens e escrevi umas 700 páginas. "Um livro de turismo com uma capa preta?" Reclamou, mas estava no contrato que eu fazia a capa. Fizeram-se três mil exemplares porque, dizia ele, "vai dar para cinco anos e depois, se esgotar, fazemos outra edição". O livro foi posto à venda e, mistério, venderam-se todos os exemplares em duas semanas. Quando voltou ao mercado, esteve duas semanas à frente de O Pêndulo de Foucault, do Umberto Eco... Ainda hoje é um livro de culto e caríssimo nos alfarrabistas.

Leu O Pêndulo de Foucault?

Não, fiquei-me pelo Nome da Rosa. Há temas que me ultrapassam porque não sou muito inteligente.

O seu romance Ernestina tem que ver com os seus avós?

Tem, mas tomaram distância e deixam de ser meus avós. São personagens que conheci, como as pessoas das histórias que o meu avô materno contava e que eram tão vivas que as poderia ter conhecido.

A memória não lhe dá descanso?

Não. Tenho uma memória boa como os diabos. Por exemplo, lembra-se do primeiro nome do Dr. Alzheimer?

Não.

Não? Olhe, é assim que começa.

"O holandês é uma boa língua para falar de porcas e parafusos"

Há algum escritor além de Céline de que tenha gostado muito?

Esse é genial. O Céline é um grande homem. As pessoas enchem a boca de Proust e de James Joyce mas o Sr. Céline está acima dessa gente toda.

É pena a posição ideológica!

É. É pena ter sido como foi, mas como escritor tem um conhecimento da alma humana que é melhor nem se comparar.

Há pouco, a propósito do livro Ernestina, queria falar-lhe dos cenários de Trás-os-Montes. Os que Aquilino Ribeiro usava...

Gostei muito do Aquilino Ribeiro até ao dia em que percebi que estava a fantasiar o povo. Lê-se Aquilino e Camilo e são duas visões totalmente diferentes. Uma é genuína, a de Camilo Caste-lo Branco, enquanto Aquilino Ribeiro andou a pintar uma gen-te toda florida.

É um produto fabricado?

É um fabrico, uma espécie de louça das Caldas.

Por isso está esquecido?

Quando os escritores perguntam se os seus livros vão ficar daqui a 50 anos, deviam olhar para os que faleceram há cinco, dez ou vinte 20 anos. Quando o José Cardoso Pires morreu escreveu-se nos jornais: "Morreu um dos maiores escritores deste século!" Eu até senti vergonha. Por amor de Deus! Dizer que é bom é uma coisa, agora cair na idolatria bacoca é mau.

Estava por cá quando morreu o Herberto Helder?

Sim, sim, sim.

Também se exagerou?

"Morreu um gigante" e não sei o quê mais... Hoje ainda se fala no Herberto Helder? Já não. E para o ano será: "O Herberto Helder. Quem?" Há essa ilusão da fama e dos panteões e não sei mais o quê. O Panteão é para pôr o Eusébio e para a Amália?

Choca-o que o Eusébio tenha ido para o Panteão?

Claro que choca! Claro. É uma vergonha! Pelo amor de Deus. É uma bacoquice, é uma pelintrice. Uma pessoa ter vergonha dos verdadeiramente bons. Que tenham a Sophia de Mello Breyner muito bem, agora o Eusébio!

E a Amália, ainda é aceitável?

Ah, também não. Tenham paciência!

Perdeu-se o bom senso?

[Hesitação] Há muito tempo que se perdeu o bom senso. É uma vergonha dizer em qualquer parte do mundo que temos um futebolista no Panteão Nacional.

E o que pensa do Miguel Torga?

Como pessoa era um horror. Um sujeito mau, peneirento e chato. Como escritor era bom, mas limitou-se na sua escrita. Tinha um nome fácil de memorizar.

Gosta que colem o seu nome como escritor transmontano?

Há uns dois anos houve uns maduros que me queriam fazer uma homenagem. Então, foram à câmara e o presidente disse logo: "Não! Ele não é de cá."

Receia que também digam: "Ele é holandês"?

Não. Isso é em relação a Mogadouro e Gaia. Sou um escritor holandês que escreve só em português? Mas acho que sou um escritor português, essencialmente. O facto de viver na Holanda e de ser publicado na Holanda não tem nada que ver com isso.

Angustia-se quando lê a tradução dos seus livros?

Não, tenho sorte. Tive dois tradutores que são geniais e mantêm o ritmo das frases e a riqueza do vocabulário.

As edições portuguesas são traduzidas do holandês?

Não, são do original português. O holandês é uma boa língua para falar de porcas e parafusos.

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