Hotel investe 1,5 milhões de euros para preservar achados

A unidade hoteleira fica numa zona de escavações arqueológicas. 32 metros de muralha fernandina foram incluídas no projeto

A distribuidora farmacêutica Farmaka entrou há menos de um ano no setor hoteleiro, com uma unidade na baixa de Lisboa, num investimento total de 18 milhões de euros, dos quais mais de 1,5 milhões de euros na preservação de achados arqueológicos.

Num encontro hoje com jornalistas, Pedro Pinto, diretor-geral do Corpo Santo-Lisbon Historical Hotel, explicou que o projeto hoteleiro de cinco estrelas, que ocupa três antigos edifícios de escritórios e de habitações, começou com a primeira compra em 2005.

Seguiram-se novas aquisições de prédios em 2009 e 2012, o que faz somar uma zona de escavações arqueológicas de mais de 620 metros quadrados, incluindo 32 metros de muralha fernandina. A muralha divide agora o espaço com o ginásio e uma sala multiúsos do hotel, entre paredes com gravuras a fazer o enquadramento histórico do local.

Dada a localização numa zona histórica e protegida da capital, as fachadas permaneceram e o arqueólogo António Valongo foi contratado para acompanhar todo o projeto hoteleiro, que chegou a juntar oito arqueólogos e dois desenhadores.

Os trabalhos de diagnóstico começaram em 2012 e os resultados visíveis hoje em dia são uma parte da muralha fernandina, construída entre 1373 e 1375 junto ao rio.

Do espólio, o arqueólogo destaca ainda os testemunhos de casas nobres, que ali surgiram quando D. Manuel I decidiu transferir o seu palácio para ficar mais perto da construção dos navios, que iriam ficar na História pelas viagens longínquas que fizeram.

A história do local está também a ser contada pelos objetos encontrados, que chegam atualmente a 881 inventariados e a 220 moedas ou partes de moedas, precisou o arqueólogo.

António Valongo aproveita para relatar os planos futuros de expor esses objetos e instalar uma mesa interativa, que promete vibrar quando os relatos remontarem a 1755, altura do marcante terramoto de Lisboa, que mudou a face da cidade.

Mais contemporâneos foram os percalços, que incluem o uso de gerador elétrico durante 22 dias, para cumprir a data de abertura em setembro de 2017 do hotel, que conta com 79 quartos, 66 funcionários e uma estada média de 3,3 noites, nota, por seu lado, o diretor-geral.

Sob o lema de "voltar ao básico, que é um serviço baseado nas pessoas", Pedro Pinto admite a vontade de replicar em Lisboa o serviço deste hotel em eventuais oportunidades de investimento que surjam. Por agora, os planos mais concretos são a abertura de uma unidade hoteleira do grupo Farmaka em Luanda "no próximo ano".

Com o objetivo de "consolidar o negócio", a unidade vizinha do Cais do Sodré representa atualmente "10/15% da faturação" do grupo de distribuição de medicamentos.

O diretor-geral sublinha também o objetivo de ter a ocupação estável todo o ano e fazer a "diferença no serviço", pelo que dentro de semanas vai abrir o jacuzzi, até ao final do ano um spa e manter a geladaria, onde os hóspedes comem a quantidade que quiserem.

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