Associações: Vítimas dos fogos de outubro foram abandonadas

Associações de vítimas assinalam distância do poder político e dizem que muitos lesados ainda não receberam ajudas

Duas associações de vítimas dos incêndios de outubro de 2017, na região Centro, criticam a alegada distância do poder central e asseguram que milhares de lesados ainda não receberam ajudas.

Ao assinalar "três meses da maior tragédia em destruição material que a região sofreu em séculos", a Associação das Vítimas do Maior Incêndio de Sempre em Portugal (AVMISP) insurge-se contra "a distância do poder político", quando "a falta de esperança cresce" no interior devastado pelos fogos de 15 e 16 de outubro de 2017.

"Sobra sempre a sensação de que continuamos entregues à nossa sorte", afirma à agência Lusa o empresário Luís Lagos, presidente da AVMISP, com sede em Oliveira do Hospital, no distrito de Coimbra.

Opinião idêntica tem o Movimento Associativo de Apoio às Vitimas dos Incêndios de Midões (MAAVIM), no vizinho município de Tábua, liderado por Fernando Tavares Pereira.

Numa nota enviada à Lusa, o empresário de Midões reitera que "a população está rigorosamente ao abandono, com medidas avançadas e sem estarem aplicadas", e reporta a existência de "milhares de lesados ainda sem ajuda".

"São empresas que lutam para voltar à normalidade e encontram discriminação nos apoios, pessoas que querem reconstruir a sua casa, as suas vidas, e a quem falta proximidade e celeridade do poder executivo", declara, por sua vez, Luís Lagos.

O líder da AVMISP testemunha queixas dos "agricultores que ficam embrulhados em burocracia" e adianta que a população "tem a sensação de que vive num país onde o Governo está de férias para o Interior".

A associação pergunta, por exemplo, "por que não se pagou, de imediato e sem burocracias, o valor indemnizatório mínimo aos familiares das vítimas mortais" e realça que, "se algum familiar não concordar com o valor final da indemnização e quiser recorrer aos tribunais, continuará a não receber o valor mínimo, de 70 mil euros", anunciado pelo Estado.

"Isto não passa de uma forma encapotada de pressão" para levar as pessoas a aceitar esse valor, considera Luís Lagos, realçando ser "todo um território que fica em causa, um conjunto de vidas que ficam hipotecadas e uma região que perde o comboio do futuro", se o Governo não promover "a discriminação positiva" de municípios do Interior "que todos os dias pagam o preço da distância" do poder central.

Questiona ainda, entre outras críticas, "onde está o Fundo Revita para a tragédia de outubro", lembrando que, "se as ajudas dos portugueses, em junho", com o incêndio de Pedrógão Grande, "mereceram a criação de um fundo para as fazer chegar de forma justa e equitativa ao terreno, em outubro é a bandalheira total".

Por outro lado, "a diferenciação ao nível da comparticipação do apoio às empresas, entre os incêndios de junho e de outubro, é gravíssima", na sua opinião.

Por seu turno, o MAAVIM insiste que "ainda não existe um único parque de recolha" de madeira queimada e alerta que "os rios estão cheios de lixo e lama".

A organização liderada por Fernando Tavares Pereira recomenda que os planos diretores municipais (PDM) "devem ser suspensos urgentemente para reorganizar todas as áreas agrícolas, florestais, industriais e urbanas".

As duas associações defendem que o Governo deve avançar com um sistema de ajudas que permita também a reconstrução das casas de segunda habitação destruída pelo fogo.

"Falamos do tipo de habitação que dá vida ao Interior", salienta a AVMISP, presidida por Luís Lagos.

Igualmente, o fundador do MAAVIM valoriza estes edifícios, usados pelos emigrantes nas férias e pelos trabalhadores agrícolas.

"Vamos deixar as paredes no ar à espera que o vento as derrube?", conclui Fernando Tavares Pereira.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.

Premium

Adriano Moreira

Entre a arrogância e o risco

Quando foi assinada a paz, pondo fim à guerra de 1914-1918, consta que um general do Estado-Maior Alemão terá dito que não se tratava de um tratado de paz mas sim de um armistício para 20 anos. Dito ou criado pelo comentarismo que rodeia sempre acontecimentos desta natureza, o facto é que 20 anos depois tivemos a guerra de 1939-1945. O infeliz Stefan Zweig, que pareceu antever a crise de que o Brasil parece decidido a ensaiar um remédio mal explicado para aquela em que se encontra, escreveu no seu diário, em 3 de setembro de 1939, que a nova guerra seria "mil vezes pior do que em 1914".