O problema "está povoado de mitos e interesses"

Tiago Oliveira afirma que o assunto dos fogos está repleto "de interesses", facto que baralha a discussão

O presidente da estrutura de missão para a instalação do sistema de gestão integrada de fogos rurais disse esta quarta-feira que o tema dos incêndios "está povoado de mitos e interesses" que retiram consistência às políticas de que este problema carece.

"O tema dos incêndios está povoado de mitos, interesses e outras questões que baralham muito o debate. Retiram a racionalidade e a consistência das políticas que a governação deste problema carece", disse Tiago Oliveira aos deputados da Comissão de Agricultura e Mar, numa audição pedida pelo PS.

Entre os mitos existentes, o especialista nomeou "o incendiarismo" (fogo posto), a utilidade dos meios aéreos e questão relacionada com as espécies.

O presidente da estrutura de missão afirmou que o problema da prevenção e combate aos incêndios vai demorar anos a resolver face ao despovoamento e ordenamento do território.

Tiago Oliveira sustentou que o interior do país não vai ficar repovoado.

"Se lá estiver gente, essas pessoas - face à dimensão do problema - nunca vão ser suficientes para limpar a vegetação como limpavam nos anos 60. Esse modelo já passou, é preciso encontrar formas diferentes de tratar a vegetação", sustentou.

"Este tema vai ficar para durar e vocês [deputados] têm de estar mais bem informados, mais bem municiados para terem uma discussão mais sã e de melhor qualidade", disse, frisando que o debate sobre os incêndios tem de ser "sereno, consistente, suportado em vivências científicas e em técnicas adequadas".

Nesse sentido, Tiago Oliveira pediu aos deputados para que ouçam os técnicos e deixem estes peritos fazerem o seu trabalho.

"Para mim, enquanto técnico, não faz sentido que o parlamento se envolva na definição de critérios técnicos, isso é coisa do técnico, acho que o parlamento se deve envolver-se nos direitos e liberdade e garantias dos cidadãos e na justeza e equidade das respostas", disse.

O especialista adiantou que, na realização da sua tese, leu e fez uma análise de conteúdo aos 112 diplomas que foram produzidos na Assembleia da República sobre o tema entre 1910 e 2013.

"As ideias que aqui existem vão produzir legislação que têm efeitos contrários às vossas próprias vontades", sustentou, defendendo que a perceção que os deputados têm do risco "não é a mesma coisa que o risco propriamente dito".

Segundo Tiago Oliveira, "uma coisa é a perceção, outra coisa é a realidade".

"O debate político deve estar muito enriquecido com contributos científicos sólidos e não tem sido essa a prática dos últimos 60 anos", frisou.

O mesmo responsável afirmou que o atual sistema que gere a prevenção e o combate "não é um sistema de base técnica", mas sim "uma síntese de arranjos e enquadramento políticos", sendo por isso necessário mudar este paradigma.

"Gerir o risco, dizer onde tem de ser limpo o mato, onde tem que entrar o avião, onde tem que ser feita a sensibilização são coisas de técnico", disse.

Para tal, referiu que a Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais, que vai entrar em funcionamento em janeiro de 2019 e que está a ser preparada por si, "é um edifício técnico puro e duro que vai produzir recomendações", devendo ser "escrutinada ao máximo porque é um trabalho técnico".

Sobre o projeto de lei do PSD que prevê a criação de um observatório técnico independente para acompanhar as questões da prevenção e combate aos incêndios e que está neste momento em discussão na comissão de Agricultura e Mar, Tiago Oliveira concorda mas levantou algumas questões.

"Estou em concordância com a existência de um observatório se as suas atribuições forem no sentido de ajudar o parlamento a produzir melhor legislação", disse.

O mesmo responsável disse ainda que "não faz qualquer sentido" tirar força à Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais na sua criação.

Ler mais

Premium

Ricardo Paes Mamede

O FMI, a Comissão Europeia e a direita portuguesa

Os relatórios das instituições internacionais sobre a economia e a política económica em Portugal são desde há vários anos uma presença permanente do debate público nacional. Uma ou duas vezes por ano, o FMI, a Comissão Europeia (CE), a OCDE e o Banco Central Europeu (BCE) - para referir apenas os mais relevantes - pronunciam-se sobre a situação económica do país, sobre as medidas de política que têm vindo a ser adotadas pelas autoridades nacionais, sobre os problemas que persistem e sobre os riscos que se colocam no futuro próximo. As análises que apresentam e as recomendações que emitem ocupam sempre um lugar destacado na comunicação social no momento em que são publicadas e chegam a marcar o debate político durante meses.

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.