Bombeiros aceitam criar unidade de missão para alterar setor

A associação Portuguesa dos Bombeiros Voluntários e a Associação Nacional de Bombeiros Profissionais aceitam a proposta do relatório. A Liga dos Bombeiros considera desnecessária

A Associação Portuguesa dos Bombeiros Voluntários (APBV) manifestou-se hoje favorável à criação de uma unidade de missão para reorganizar os corpos dos bombeiros, tal como é proposto pela comissão técnica independente que analisou os incêndios de outubro de 2017.

Em comunicado, a APBV refere que está de acordo com a criação de uma unidade de missão, desde que as associações do setor participem na discussão, nomeadamente a Associação Portuguesa dos Bombeiros Voluntários, que é a representante legal dos bombeiros voluntários.

A associação adianta que já solicitou ao ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, uma reunião com caráter de urgência para que possa contribuir para "a mudança desejável" e "salvaguardar os legítimos anseios dos bombeiros voluntários e das populações".

No comunicado, a APBV refere ainda que têm alertado para muitas das conclusões do relatório, mas a tutela e os sucessivos governos não têm tido "a necessária sensibilidade e vontade para alterar as situações que contribuíram para que acontecessem as tragédias de 2017".

Associação Nacional de Bombeiros Profissionais de acordo com a unidade de missão

Também a Associação Nacional de Bombeiros Profissionais (ANBP) considerou ser "importante" a criação de uma unidade de missão para reorganizar os corpos de bombeiros e destacou a necessidade de discutir no mesmo patamar prevenção e combate aos fogos.

"Era importante que isto acontecesse porque neste momento não sabemos qual é a ponto de situação em relação àquilo que o Governo quer fazer e pretende fazer acerca desta matéria", disse à Lusa, o presidente da ANBP.

No entender de Fernando Curto, neste momento está-se a falar "exclusivamente da prevenção", tendo sido criada toda uma estrutura para a prevenção para a floresta.

"Parece-me a mim, espero eu estar enganado, que estamos a esquecer-nos do combate. No nosso entender, o combate e a prevenção não podem estar desassociados um do outro e, nesse sentido, era importante que a discussão que está a ser feita ao nível da floresta em termos do que é a organização e o desenvolvimento, devia estar em paralelo a ser discutido num âmbito do combate", salientou.

Liga dos Bombeiros mostra-se contra

O presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP), Jaime Marta Soares, concorda na generalidade com o relatório hoje conhecido sobre os incêndios de outubro, mas considera desnecessária uma "unidade de missão" para reorganizar os bombeiros.

Nas palavras de Marta Soares não há necessidade de uma "unidade de missão", que a existir terá de passar "pela mais alta responsabilidade e presença dos bombeiros no processo".

"Há muito tempo que defendemos uma grande reforma do setor dos bombeiros. Já apresentámos essa proposta", disse o responsável, defendendo que mais de o que uma unidade de missão "o que é preciso é que o Governo se sente à mesa com os bombeiros e dê guarida às suas propostas".

É preciso, disse, "analisar, discutir e decidir em conjunto", sendo que o relatório hoje divulgado pode dar uma contribuição.

Jaime Marta Soares nota que o documento "não faz qualquer critica pejorativa" à atuação dos bombeiros, antes dizendo que foi a Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) que "mais uma vez falhou".

Resultados do relatório

No relatório entregue na terça-feira no parlamento, a comissão técnica independente que analisou os incêndios de outubro de 2017 defende a criação de uma unidade de missão para reorganizar os corpos de bombeiros, tendo em conta as vulnerabilidades existentes, que se vão agravar no futuro.

O relatório da comissão técnica independente, que atualiza para 48 o número de mortos em outubro, conclui que falhou a capacidade de "previsão e programação" para "minimizar a extensão" do fogo na região centro (onde ocorreram as mortes), perante as previsões meteorológicas de temperaturas elevadas e vento.

A Autoridade Nacional de Proteção Civil pediu um reforço de meios para combater estes incêndios devido às condições meteorológicas, mas não obteve "plena autorização a nível superior", e a atuação do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) foi "limitada" por falhas na rede de comunicações.

O relatório refere ainda que o fogo da Lousã, em outubro de 2017, um dos maiores do ano, teve causa negligente e a origem pode resultar do não cumprimento pela EDP do regulamento de segurança das linhas elétricas.

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