"Ideia de os advogados serem cinzentos mostra desconhecimento"

O DN foi conhecer o homem por detrás do advogado: Guilherme de Figueiredo, 60 anos, adepto do FCP e amante de cinema será o próximo bastonário dos advogados. A tomada de posse será a 11 de janeiro.

Lembra-se do momento em que decidiu ser candidato a bastonário dos advogados?

Um dia ligou-me um colega que havia integrado a lista na anterior candidatura a perguntar-me se voltávamos à estrada como candidatos. Foi perturbador, desassossegou-me e foi o ponto de partida.

O vir a tornar-se uma figura pública assusta-o ou é uma ideia que o seduz?

A ideia de figura pública numa problematização interior entre a sedução e o receio nunca se me colocou. Talvez agora o ter-me colocado a questão eu a comece a realizar enquanto problema...

Se tivesse um filho gostaria que ele tivesse sido advogado?

Pode parecer politicamente correto, mas, de facto, o que mais gostaria era de o sentir motivado, feliz e qualificado na profissão que viesse a escolher, e me procurasse para falar das grandezas e das fraquezas do caminho que seguia. O diálogo seria sinal que ele havia escolhido o que desejava e que essa opção reforçava a nossa relação.

A advocacia é mais o seu ganha pão ou a sua paixão?

A advocacia é um amor: eu gosto de advogar. Chegou mais tarde, na idade adulta. A paixão foi o cinema, a poesia, as artes de palco. Naquele caso foi-se instalando, neste caso instalou-se. Naquele caso uma racionalidade-afectiva; neste caso uma emocionalidade-racional.

Pelo facto de ter essa faceta artística acha que pode contribuir para acabar com a imagem de "cinzentos e conservadores" que têm os advogados?

A ideia de os advogados serem "cinzentos e conservadores" tem tanto de ideologia, como de desconhecimento e aculturação; tanto de molhar os pés na espuma do dia, como de olhar o mar de longe. Existe e é injusta. Sim, espero ajudar a afirmar a advocacia e dar a ver os advogados com cores diferentes, o seu pensar plural, e servirem de exemplo como é possível a diferença conjugar o pronome nós.

Espera trazer maior elevação intelectual à Ordem dos Advogados?

Espero contribuir para que a OA se afirme institucionalmente como essencial à defesa do Estado de Direito, que se constitua como uma entidade fundamental para a defesa dos direitos fundamentais, e como uma Associação Pública que assegure o discurso da advocacia portuguesa e os interesses dos advogados.

É um advogado da barra do tribunal ou de escritório?

Sou um advogado generalista, liberal, de prática individual associada, de escritório e de barra.
Lembra-se do que sentiu a primeira vez que pisou um tribunal enquanto advogado a defender o seu cliente?

Correu bem?

Lembro-me. Senti-me receoso quanto aos procedimentos, quando deveria falar e como deveria falar; e, se seria capaz de me fazer perceber. Mas levava o assunto muito bem estudado. Correu muito bem. Nessa altura, quer os colegas quer os juízes tinham uma atenção muito solidária com os mais novos.

O quadro que terá nas paredes do salão nobre - onde estão todos os seus antecessores - será pintado por quem? Faz questão de escolher o artista?

Gostaria de escolher, claro. Terei que saber qual é tradição. E gostaria que fosse do Mestre Resende (Júlio Resende), mas infelizmente já não será possível. Mas sei de outros artistas que gostaria que me dessem a honra.

Prefere pessoas ou animais? Sei que tem uma cadela a quem inclusive "deu" o seu apelido.

Gosto de pessoas e de animais.

Mas aplaude todas as alterações legislativas que têm vindo a ser feitas de proteção dos direitos dos animais?

Aplaudo a alteração agora feita no sentido que os animais não são coisas. É um grande passo, conforme já havia sido dado pelo legislador alemão. Não são pessoas humanas, mas também não são bibelôs.

Futebol: sofre ou alegra-se por que clube?

Alegro-me com as vitórias do Futebol Clube do Porto. Não sofro por nenhum.

Costuma ir aos estádios?

Eu gosto de ver futebol num estádio, nomeadamente ir ao Dragão. É um clima fantástico, enquanto festa.

Vota à direita ou à esquerda?

O bastonário representa todos os associados. Não deve tomar posição pública sobre onde vota.

Aparte de convicções políticas ou partidárias, qual foi, para si e até agora o melhor Presidente da República?

A escolha do melhor Presidente nesta atual república é muito redutor, porque desvaloriza os contextos históricos, as dificuldades e os esforços, e a importância de certos acontecimentos.

A sua porta - no Largo de São Domingos - estará sempre aberta?

Sempre! Mas esta afirmação precisa de ganhar relevância na "vida realmente vivida". Esse é um desafio maior do que à 1ª vista parece supor a abertura.

Ler mais

Exclusivos

Premium

João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.