Hugo Soares critica direção da bancada por não se despedir de Montenegro

O anterior líder parlamentar do PSD considera que a bancada "falhou gravemente" por não ter falado na sessão de despedida do colega social-democrata

O anterior líder parlamentar do PSD, Hugo Soares, acusou hoje a direção da bancada de "falha grave" por não ter usado da palavra na ronda de intervenções de despedida a Luís Montenegro, crítica partilhada por outros deputados da bancada.

Numa troca de e-mails a que a Lusa teve acesso, o deputado e anterior vice-presidente da bancada do PSD Miguel Santos foi o primeiro a levar o assunto, mas outros como Marques Guedes e Paula Teixeira da Cruz também se associaram, embora com destinatários diferentes nas críticas.

Contactado pela Lusa, o líder parlamentar do PSD, Fernando Negrão, escusou-se a comentar o conteúdo dos e-mails trocados, mas afirmou que fez hoje em relação a Luís Montenegro "rigorosamente o mesmo" que tinha feito no momento da saída do ex-líder do PSD Pedro Passos Coelho do parlamento.

Num e-mail com o assunto "Plenário - despedida do Luís Montenegro", enviado a todos os deputados do PSD perto das 19:00, Miguel Santos diz ver "com lamento e tristeza" que, no momento da saída de Montenegro, "o elogio tenha surgido somente da parte do líder parlamentar do CDS".

O deputado recorda "o costume" em que todos os grupos parlamentares proferiam habitualmente algumas palavras, apontando o exemplo da saída do deputado do PCP Honório Novo em que todas as bancadas, incluindo o PSD, fizeram intervenções.

Na mesma linha, outro ex-líder parlamentar do PSD Luís Marques Guedes enviou também um e-mail, no qual lamentou que também tenha sido assim na despedida de Pedro Passos Coelho do parlamento.

"No parlamento, o respeito pelos adversários não é mais uma cortesia, é antes uma regra básica de elevação democrática, por estes tempos tão em desuso. É mais um exemplo de uma boa praxe parlamentar que esta esdrúxula legislatura atira para o lixo. Lamentável", critica.

Por volta das 20:00, Hugo Soares lamentou também o comportamento das restantes bancadas, à exceção da do CDS, recordando que Montenegro foi deputado 16 anos e líder parlamentar do PSD por sete.

"Mas não posso deixar de dizer que a causa da minha indignação interior não se prende com o comportamento dos nossos adversários; antes considero uma falha grave do grupo parlamentar do PSD não ter usado da palavra naquela circunstância e momento como se impunha. Hoje, e pela primeira vez, eu (e seguramente muitos colegas) não me senti representado com tamanha distração", afirma.

Também a ex-ministra Paula Teixeira da Cruz respondeu em tom crítico, lamentando o que chamou de "falta de reconhecimento" e "falta de respeito por quem soube unir uma bancada parlamentar".

Paula Teixeira da Cruz disse ainda lamentar que o reconhecimento "tenha vindo de outros", mais do que de quem deveria representar os deputados do PSD.

"A grandeza mede-se nos momentos difíceis. Não a vi", refere.

Antes da abertura da sessão de hoje, dedicada ao debate quinzenal com o primeiro-ministro, o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, destacou a cordialidade de Luís Montenegro e desejou-lhe os maiores sucessos a "nível pessoal, profissional e político".

Em seguida, apenas usaram da palavra o Luís Montenegro e o líder parlamentar do CDS-PP, Nuno Magalhães.

O líder parlamentar do PSD, Fernando Negrão, viria a referir-se brevemente à saída de Montenegro já durante o seu tempo de intervenção no debate quinzenal para lhe endereçar "um grande abraço de amizade" e desejar-lhe "as maiores felicidades pessoais e profissionais".

Na despedida de Passos Coelho no parlamento, em 28 de fevereiro, apenas Ferro Rodrigues fez uma intervenção inicial - também em dia de debate quinzenal - tendo Fernando Negrão assinalado a saída já durante o período de debate, no que foi secundado pelo primeiro-ministro, António Costa, e pelo líder parlamentar do PS, Carlos César.

Em 21 de março, foi a vez do deputado CDS-PP Filipe Lobo d'Ávila deixar a Assembleia da República, tendo feito uma intervenção usando o tempo individual de que os deputados dispõem e sido cumprimentado no final pelos deputados Adão Silva (PSD) e Filipe Neto Brandão (PS), além do seu líder parlamentar.

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.