Médicos vão receber por doente para garantir urgências

Na fase crítica da gripe no ano passado, o tempo de espera no Amadora-Sintra chegou a ultrapassar 20 horas.

Durante o período da gripe há médicos que vão ser pagos pelo número de doentes atendidos e não à hora, que é o regime habitual. Esse será um dos modelos que o hospital Amadora-Sintra prevê para o período de inverno, para garantir que não há falhas nas urgências e captar os clínicos necessários para dar resposta ao aumento da procura. No ano passado, foram várias as situações de rutura. Só no Amadora-Sintra, houve dias em que o tempo de espera superou 20 horas. Vários peritos do setor acreditam que a qualidade do atendimento será mantida e que o modelo pode atrair mais médicos nesta época.

De acordo com o plano de contingência deste hospital - que já está a pagar a médicos verbas à parte para dar resposta a mais doentes internados -, há um reforço global da oferta, seja ela de camas, de recursos humanos ou com base em acordos com outras unidades. Em relação às equipas médicas há novidades, como a contratação de médicos de família ou o aumento dos pagamentos.

A unidade admite a "contratação de médicos com pagamento por doente observado e não por hora", o que pode ser mais compensador, mesmo em relação ao pagamento de horas extra. Resta saber se será para aplicar no serviço de observação, onde estão sobretudo médicos da casa, ou zona da triagem - que é o mais provável, que é onde estão a trabalhar os médicos de empresas que por vezes têm deixado escalas desfalcadas

O DN contactou o hospital, que referiu que este é um dos modelos permitidos pelos despachos do anterior executivo. Mas não avançou com o valor previsto para estes atos, até porque "podem não ser necessários caso haja uma época da gripe sem grandes problemas".

Previsto está o "pagamento por doente, o reforço da remuneração ou o recurso a médicos de família", admite fonte oficial. "São tudo situações contempladas pela lei e que têm como objetivo prevenir as situações que ocorreram em 2014. Temos de nos munir dos mecanismos necessários." Até aqui, apesar de já ter havido dias complicados, o serviço tem estado bem.

Médicos recebem extra por cama

A unidade já está a pagar mais dinheiro aos médicos que estão a dar apoio a um novo serviço de internamento aberto desde dia 2 de novembro. O internamento geral 2 conta com quase 30 profissionais sem contar com os médicos, que vêm da medicina interna e de outras áreas médicas. E recebem um pagamento adicional. Segundo um clínico, "os médicos foram contactados para saber se estavam interessados. E além de assistirem os doentes habituais recebem um pagamento por cama para também observarem os doentes deste serviço, o que significa que o podem fazer no mesmo tempo de serviço".

O bastonário da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva, não criticou o modelo, se for bem aplicado. "É um tipo de pagamento que pode ser explorado, porque facilita a contratação de médicos. Pode ser mais vantajoso do que o pagamento por hora. O modelo atual foi desregulado e não há quem queira fazer mais urgências, porque a remuneração é baixa."

Sobre os riscos para o atendimento, diz não os equacionar. "Não acredito que um médico queira atender um doente rapidamente só para ganhar mais uns euros. Desde logo porque se cometer um erro é sua responsabilidade e qualquer erro pode pôr em causa a sua vida profissional." No entanto, admite que possam surgir "perversidades", como os médicos "chamarem mais os doentes menos graves e mais rápidos. É por isso que têm de ser definidas regras para que o modelo seja exequível. Na essência, o seu objetivo é que haja mais doentes atendidos e com menos esperas".

Ana Escoval, professora e membro do Observatório Português dos Sistemas de Saúde, diz que esta medida mostra que "os hospitais se estão a adaptar ao mercado. Estão a tomar medidas transitórias para dar resposta à falta de recurso".

O pagamento por ato, mais usado no sistema privado ou em complemento de outras formas de remuneração, "pode ser mais atra-tivo para os médicos. E não me parece que tenha como objetivo acelerar o atendimento. Deve é ser monitorizado e visto como algo transitório". No futuro, caso resulte, esta modalidade de pagamento até pode ser usada noutras unidades, caso haja bons resultados".

Outras medidas e hospitais

Outras medidas são o atendimento dos doentes pouco urgentes em áreas específicas, ou zonas de internamento, como prevê o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. O pagamento mais alto por hora na Amadora, nos dias complicados (de 24 a 27 de dezembro e de 31 de dezembro a 3 de janeiro), está previsto noutras unidades também, como o aumento de camas e a contratualização de camas para os casos sociais e cuidados continuados. Na Amadora, pretende-se ainda fazer mais cir

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