"Grupo dos Nove queria que eu assumisse a Presidência"

Começou esta conversa por falar do 25 de Abril e daquilo que foram os seus ideais. Propunha-lhe agora, 35 anos depois, falarmos um pouco do 25 de Novembro de 1975. Essa foi uma batalha de que saiu derrotado?

Eu não considero que saí derrotado, minimamente!

Trace-me a sua visão desses acontecimentos.

Houve uma conjugação de interesses de vária ordem. Primeiro, o Grupo dos Nove, em consequência da tal conversa que eu já referi do Melo Antunes com o Gerald Ford e o Kissinger.

Do outro lado ficou o senhor e os militares que estavam próximos do Partido Comunista Português?

Houve aí uma separação,  eu não tinha nada que ver com os militares...

Portanto, o Grupo dos Nove, os do PS, sociais-democratas, via que acabou por ser vencedora; do outro lado a esquerda revolucionária, que o senhor talvez encabeçava, o PCP. É isto?

É basicamente isso. Mas o Grupo dos Nove vai ser enquadrado, estava cá nessa altura, recorde-se, o Carlucci, já como embaixador com ordens directas de Washington, mas felizmente para nós com uma perspectiva e uma visão diferente da do Kissinger, que era muito mais derrotista e pessimista e considerava o País já completamente dominado por Moscovo...

Mas nesse dia, nesses acontecimentos, tinha por trás o apoio de Álvaro Cunhal?

Não tinha nenhum, nada! Nunca tive apoio do Álvaro Cunhal, nem qualquer relação com Álvaro Cunhal. Tivemos sempre um confronto muito sério. Daí o contencioso que se abriu entre mim e o Partido Comunista, que perdura até hoje e que foi agravado pelos resultados das presidenciais de 76.

Nesse dia acabou por recuar, também?

Eu não recuei em nada! As pessoas têm a convicção de que eu estava metido no 25 de Novembro... Nada! Zero! Só soube do 25 de Novembro na madrugada do 25 de Novembro, quando venho do Conselho de Revolução...

Então quem é que estava do outro lado, em oposição ao Grupo dos Nove e ao caminho que o País acabou por seguir?

Havia um confronto ideológico, mas não havia armas na mão de ninguém, ninguém estava contra ninguém! O argumento da guerra civil, de que Portu-gal estava à beira de uma guerra civil, para mim é mentira! Não havia guerra civil nenhuma! Eu, pelo menos, não tinha plano nenhum preparado! Não tinha conhecimento de nenhumas reuniões conspirativas contra o regime. Nada!

Essa história foi montada depois, segundo a sua opinião?

A minha opinião é que houve um argumento para justificar a acção. Os Nove desenvolvem toda uma táctica no sentido de ir afastando os elementos afectos ao PCP na área militar, como o Vasco Gonçal- ves, e os elementos do Conselho da Revolução afectos ao PC. Repare que eu me mantenho... Em Agosto de 75 o Grupo dos Nove convida-me para uma reunião em casa daquele moço que já morreu, o Gomes Mota, nos Olivais. Fui lá, vejo o sótão dele cheio de gente, e querem que eu assuma a Presidência da República! "Eu?! Não, não estou minimamente interessado! Nunca estive interessado em área de poder nenhuma, no exercício do poder!" "Mas tens de ser, nós não temos confiança no Costa Gomes, temos de o afastar." O Costa Gomes tinha retirado o comando das regiões militares. Mas insisti que não, que não queria.

Nesse dia, nesses acontecimentos, não liderou?...

Nada! Rigorosamente nada! E não tinha conhecimento de nada! A posteriori é que começo a tomar conhecimento de que havia reuniões em que se conspirava. E depois vejo malta militar ligada ao PC a entrar na ocupação das bases aéreas. Os sargentos pára-quedistas estavam perfeitamente instrumentalizados pelos comunistas. O PC não dá ordem para ocupar, mas assobiou para o ar e deixou andar! Se aquilo desse certo, o PC estava senhor da situação; sendo derrotado, nada! Uma semana ou dez dias antes do 25 de Novembro, o Melo Antunes encontrou-se em casa do Nuno Brederode Santos com o Álvaro Cunhal, exactamente para garantir ao Álvaro Cunhal que, se não houvesse intervenção nenhuma do PC na rua, o Grupo dos Nove ia desencadear com o apoio militar do MFA  - com algumas excepções, como era o meu ca-so - uma acção para varrer a esquerda revolucionária. O Álvaro Cunhal esfregou as mãos, contente da vida. No 25 de Novembro dá-se o impedimento da saída das viaturas dos Comandos da Amadora com betoneiras, camiões, de uma empresa de construção civil. O Costa Gomes, às dez ou onze da manhã, chamou o Álvaro Cunhal a Belém e pediu-lhe para ver se conseguia que as betoneiras e os camiões saíssem dos portões dos Comandos. O Cunhal alertou a Intersindical e mandaram sair. Acabou. Portanto, houve uma colaboração activa do PC quando viu que aquilo dava para o torto. Daí que o Melo Antunes depois tenha dito, combinado com o Álvaro Cunhal, que o Partido Comunista era essencial à democracia portuguesa! O que interessava ali era essencialmente varrer a esquerda revolucionária!

Repito a pergunta que lhe fiz há pouco: recorda-se do que é que fez nesse dia?

Perfeitamente! Às duas da tarde do dia 24 iniciou-se uma reunião do Conselho da Revolução para decidir a minha saída do Comando da Região Militar de Lisboa e a substituição pelo Vasco Lourenço. Por-que é que digo que não sou um derrotado? Estava em jogo a questão do Comando da Região Militar de Lisboa, era a táctica do Grupo dos Nove para ir afastando de órgãos do poder, militar e civil, os elementos indesejáveis. Mas eu continuava como comandante do COPCON! Esse Conselho da Revolução termina às quatro da manhã, ou quatro e meia, do dia 25.

Mas à noite estava ao lado de Costa Gomes na televisão, quando ele anunciou que Portugal estava em estado de sítio e que os militares revoltosos estavam a ser derrotados.

Porque fui para Belém! Às quatro e meia da manhã acabou o Conselho da Revolução e como sabia que no COPCON havia militares à espera de saber se eu continuava ou não com o comando da Região Militar de Lisboa, antes de ir para casa fui lá dar-lhes uma satisfação. Aquilo estava cheio de gente, a maior parte à paisana. Num sofá de dois lugares ao la-do do maple onde me sentei estavam o Mário Tomé e o capitão Costa Martins, na altura major. Contei que deixava o Comando da Região Militar de Lisboa e ficava apenas como comandante do COPCON e o Costa Martins disse: "Os pára-quedistas não vão aceitar e vão ocupar as bases aéreas!" O Tomé levanta-se a dizer: "Isto aqui cheira-me a golpada!" E eu: "A mim também, aguentem aí!" Chamei dois oficiais da Força Aérea, o Arlindo Dias Ferreira e o Tasso Figueiredo, para uma sala à parte e perguntei-lhes. "Isso não é nada connosco, é de luta dos pára-quedistas com o Morais Silva, o chefe do Estado-Maior", responderam.

Abreviando, rejeita que tenha tido qualquer influência e qualquer participação no planeamento de uma eventual tomada de poder pelas forças de esquerda em Portugal naquela altura?

Completamente fora! A Zita Seabra diz que estiveram todos nas sedes do PC à espera da ordem para saírem para a rua, para atacar. Ordem que nunca veio, porque havia acordo do Cunhal com o Melo Antunes. Os militares da esquerdalhada estavam à espera da minha ordem! Mas eu estava completamente fora!

Completamente desalinhado?

Completamente desalinhado, não dei ordem nenhuma! Ainda pensei: "Bem, isto vai ser aqui um granel desgraçado!" Mas, depois de me ser garantido pelo oficial da Força Aérea que não era nada connosco, como estava saturado, esgotado e tramado com o que tinha acontecido no Conselho da Revolução, fui para casa. Deitei-me a dormir e fui acordado ao meio-dia pelo meu chefe de Estado-Maior do COPCON, que me diz: "General, é melhor vir rapidamente aqui para o COPCON, que estão a passar-se coisas graves, e o general Costa Gomes já telefonou duas vezes a pedir a apresentação do general em Belém." Fui para lá e apresentei-me.

Dos políticos com quem se cruzou ao longo destes 35 anos, qual foi o que lhe deixou melhor impressão e pior impressão? Recordações negativas em relação a Cunhal, já vi que tem algumas.

Pois, é o que toda a gente diz. O  Cunhal, um homem de grande inteligência, eu acredito nisso tudo, podia ser isso tudo.

Mas?...

Era um homem  rígido, demasiado ortodoxo na sua perspectiva ideológica e eu não concordava. Tive um almoço particular em casa de um militante do PC que era meu amigo, desde os tempos de liceu, só nós os dois, e o Cunhal procurou doutrinar-me, dizer-me o que devia fazer enquanto comandante do COPCON! Respondi: "Ó Álvaro Cunhal, não sabia que era consigo que ia jantar. Vim para ter uma conversa, mas não me venha a mim dizer o que é que eu posso ou não fazer enquanto comandante do COPCON, senão eu começo a dizer o que é que o senhor deve fazer enquanto secretário-geral do PC!"

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