Greves? "Chama-se democracia", responde Governo

Para governante, sindicatos "fazem o seu trabalho de reivindicação". Frente Comum fala em adesão de 75%

O Governo não teme nem está preocupado com as greves, assumiu ao DN o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Pedro Nuno Santos, depois da função pública ter paralisado ontem mais uma vez. "Faz parte", apontou o governante, "chama-se democracia". Das bancadas que apoiam o Governo, como a do BE, vem o alerta de que esta greve é "um sinal claro".

Pedro Nuno Santos insistiu que "não há nenhuma preocupação com as greves. Fazem parte, também desta solução governativa", apontou. Da bancada bloquista, a deputada bloquista Joana Mortágua (ainda a meio do dia) afirmava que "tudo" indicava para "uma boa adesão à greve da função pública".

"Nas escolas, essa adesão está a ser muito expressiva. Este é um sinal claro ao Governo de que o país reconhece os passos que foram dados mas acha que há muito mais para fazer, para recuperar rendimentos e cumprir a expectativa", disse aos jornalistas.

O secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares sublinhou ao DN idênticos propósitos do executivo socialista. "Nós estamos a trabalhar para iniciar o descongelamento das carreiras da administração pública que já estão congeladas há quase uma década e a iniciar o processo de regularização dos precários na administração pública", afastando assim qualquer ideia de que o Governo mantém "algum problema com os funcionários públicos". "Isto faz parte", acrescentou Pedro Nuno Santos.

A contestação - cujos dados disponíveis mostram que permanece relativamente baixa - tem sido mais visível nas últimas semanas, com sucessivas paralisações do pessoal discente nas escolas, nos médicos e enfermeiros e, ontem, alargadas a todos os serviços da administração pública. O governante garantiu que o executivo do PS não teme esta contestação crescente. "Respeitamos os sindicatos e trabalhamos com eles. Eles fazem o seu trabalho de reivindicação das várias formas que podem. Chama-se democracia", apontou ao DN.

Para o BE falta resolver o congelamento das carreiras - motivo principal da greve de ontem. "É uma promessa do Governo; está no programa do Governo; está nos acordos que o Governo fez com o Bloco de Esquerda e é importante que o Governo dê um conjunto de sinais aos trabalhadores da administração pública", disse Joana Mortágua.

Nas contas dos sindicatos, a greve dos funcionários públicos saldou-se por um "balanço muito positivo", com Ana Avoila, a coordenadora da Frente Comum de Sindicatos da Função Pública, a referir uma adesão "em termos gerais de 75%", que nos setores da Saúde e da Educação chegaram a 90%. "É mais no setor da Educação e da Saúde. Esta média de 75% representa mais ou menos o valor da última greve da função pública de janeiro. Mas nota-se que na Saúde e na Educação continua a subir", apontou num primeiro balanço a dirigente sindical.

Sem comentar os números, o ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, afirmou tratar-se de uma expressão normal de um direito cívico. "Não tenho informações oficiais a não ser o que tenho visto nos jornais. Normal, é uma expressão sindical generalizada afeta a setores como a educação a saúde e administração pública, expressão normal de um direito cívico."

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