"Grândola, vila morena", ontem e hoje, eleita a "senha da liberdade"

O músico Carlos Mendes disse à Lusa que "só podia ser o 'Grândola'", a música escolhida pelo coletivo "Que se lixe a troika" para protestar contra o Governo, porque é a "senha da saída da noite para o dia".

A canção de José Afonso tem sido uma das protagonistas da atualidade portuguesa, desde que foi entoada, há duas semanas, por elementos daquele coletivo, nas galerias da Assembleia da República, interrompendo um discurso do primeiro-ministro.

Carlos Mendes, um dos elementos do "Que se lixe a troika", explicou que a música foi escolhida por toda a carga "emocional e simbólica" que carrega, por ser a que melhor representa a liberdade.

Esse simbolismo de cantar a música na Assembleia da República "tirou um certo medo que se estava a criar junto da população(...); um medo de dar a cara pela liberdade, porque são os seus empregos que estão em causa", lamentou.

"Grândola, Vila Morena", música escrita por José Afonso e gravada em França, em 1971, para o disco "Cantigas do Maio", foi a segunda senha para a revolução de 25 de Abril de 1974, tendo sido transmitida, no início daquela madrugada, no programa Limite da Rádio Renascença.

"Foi a senha da saída da noite para o dia. Neste momento, o que se precisa é de ventos de liberdade e de qualquer coisa que nos junte a todos e que nos mova para derrubar este governo, que está a fazer uma política profundamente errada", argumentou Carlos Mendes.

Desde aquele dia 15 de fevereiro, no Parlamento, a música voltou a ser entoada em vários momentos públicos, em que estiveram presentes membros do Governo, e poderá ser a canção emblemática da manifestação de sábado, em Lisboa, Porto e outras três dezenas de cidades portuguesas e estrangeiras.

"Superou todas as expectativas; pessoalmente não estava à espera; sabia que ia ter algum efeito, até porque esta é verdadeiramente a canção da liberdade, do 25 de Abril, do povo", frisou.

Carlos Mendes, 66 anos, tinha 24 anos quando "Cantigas do Maio" foi lançado, no natal de 1971.

Recorda-se de ouvir falar das gravações, porque partilhava a editora Orfeu com José Afonso, e considera ainda hoje que o disco é "a obra-prima" do músico, "um homem virado para as causas sociais, para a mudança".

No dia 25 de Abril de 1974, percebeu que a música definiu o "momento revolucionário".

Hoje, Carlos Mendes acredita que, tal como canta José Afonso, "o povo é quem mais ordena": "O descontentamento é muito grande. Esta austeridade é uma coisa violentíssima que cruza a sociedade toda. É muito natural que, no dia 02 de março [sábado], seja uma manifestação gigantesca".

"Vai ser uma coisa extraordinária e que pode trazer, se tiver essa dimensão grande, pode trazer sérios problemas ao governo. Poderá ser o primeiro passo para o derrube deste Governo", disse.

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