Governo quer pôr hospitais a trocar equipamento e pessoal

Grupo vai acompanhar as atividades hospitalares, promovendo a mobilidade de profissionais dentro do SNS e um maior rendimento na utilização de equipamentos médicos

Se há um hospital que tem um aparelho de raio x que não está a ser usado e há outro na região onde essa máquina está em falta, porque não cedê-lo? Para identificar estas necessidades e facilitar a partilha de equipamentos, bem como a transferência de médicos, enfermeiros e outros funcionários, o Ministério da Saúde criou agora o Grupo de Acompanhamento de Hospitais (GAH) que integram o Serviço Nacional de Saúde (SNS). O que se pretende é que apoie e acompanhe o desempenho das unidades e rentabilizar ao máximo os recursos.

"Muitas vezes, as instituições não comunicam entre si, mesmo para a partilha de coisas simples. O que se pretende é que este grupo possa identificar oportunidades de partilha e facilite soluções", explica Marta Temido, presidente da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS). Por estarem "focadas nos seus problemas", torna-se, por vezes, difícil para as instituições procurar soluções, sendo nesse campo que o grupo vai intervir. "Como não conversam, por vezes não sabem que necessidades têm. Com este grupo, pretende-se ter uma visão mais transversal".

Atualmente, frisa a presidente da ACSS, as instituições já colaboram entre si. "Mas o grupo vai ajudar a que isso aconteça mais e mais depressa", frisa Marta Temido. Quanto às contrapartidas, a mesma adianta que o GAH poderá também sugerir soluções.

Segundo o despacho publicado na semana passada em Diário da República, o GAH estará coordenado com a Administração Central do Sistema de Saúde, as Administrações Regionais de Saúde e as Coordenações da Reforma dos Cuidados de Saúde Primários, Hospitalares e Continuados. O objetivo é "apoiar o alinhamento do desempenho das unidades hospitalares prestadoras de cuidados face às metas definidas e aos recursos disponibilizados pelas entidades tutelares."

Uma das funções do grupo é promover uma melhor articulação entre hospitais do SNS, nomeadamente através da elaboração de "propostas de mobilidade de recursos humanos" e "de maximização da utilização de equipamentos, designadamente dos equipamentos médicos pesados, existentes nas diferentes regiões".

Segundo o despacho, cabe também ao grupo apresentar "propostas de aquisição centralizada ou partilhada de bens e serviços cuja identificação seja efetuada". Com isto, explica Marta Temido, pretende-se que instituições que ficam próximas possam fazer mais compras de material em conjunto.
Promover a mobilidade

O presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), Alexandre Lourenço, lembra que "há muitos anos que há necessidade de mobilidade" de recursos humanos no SNS, "uma vez que há hospitais com profissionais em excesso e outros na mesma região onde há carências". Por isso, espera que este grupo "promova a mobilidade de profissionais de acordo com as necessidades da população".

Com vista a uma maior cooperação, quinze instituições hospitalares de Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve assinaram recentemente protocolos de afiliação para a otimização de recursos humanos e materiais. Essa cooperação será feita ao nível de algumas especialidades médicas, transporte de doentes e aquisição conjunta de materiais.

O Centro Hospitalar Lisboa Norte (CHLN) foi pioneiro nas afiliações, tendo estabelecido a primeira com o Centro Hospitalar do Oeste em março de 2015. Avançou depois para Algarve, Alentejo, ilha Terceira e Funchal. "Procuramos resolver os problemas das pessoas no seu local de residência", explica Carlos Martins, presidente do Conselho de Administração do CHLN. Além da partilha de recursos humanos, há também leitura de exames à distância, por exemplo.

Carlos Martins acredita que o grupo criado pelo despacho "irá encontrar soluções para resolver problemas" como avarias nos equipamentos ou falta de recursos humanos para manusear algumas máquinas. "Os equipamentos podem ser deslocalizados com vista a uma melhor capacidade de resposta", afirma.

Relativamente aos equipamentos médicos, Alexandre Lourenço espera que o GAH possa "fazer um diagnóstico e que se aperceba que grande parte dos equipamentos do SNS estão a esgotar o seu tempo de vida, pelo que é preciso um plano nacional de investimento". Esta é uma área onde, segundo o presidente da APAH, existem "graves dificuldades" em Portugal.

Já Pedro Nunes, ex-presidente do Centro Hospitalar do Algarve, espera "articulação entre hospitais e que cada um dê o que pode dar". A partilha de recursos humanos e equipamentos é positiva, refere Pedro Nunes, "mas, na prática, quase não acontece." Mais do que partilha de equipamentos, o ex-bastonário da Ordem dos Médicos diz que "a questão coloca-se sobretudo nos recursos humanos". No Algarve, lembra, "há uma enorme carência" de profissionais.

De acordo com o despacho, o grupo deve "apoiar a função das entidades tutelares, designadamente, o processo integrado de planeamento de atividades, o controlo de gestão e a avaliação do desempenho assistencial e económico-financeiro de cada unidade", assim como "acompanhar a atividade dos hospitais do SNS, monitorizando a evolução do conjunto de indicadores que permitem caracterizar as diversas instituições em termos de acesso, eficiência, qualidade e satisfação". Cabe-lhe, ainda, "propor políticas gerais de melhoria" e "promover o desenvolvimento de projetos especiais transversais a todos os hospitais do SNS". Todos os meses, os elementos do GAH têm de apresentar um relatório de atividades.

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