Geólogos alertam para perigo na Ribeira Quente

Tragédia matou 29 pessoas há 13 anos, mas possibilidade de se repetir é quase certa

Um violento deslizamento de terras e pedras provocado pela chuva torrencial matou 29 pessoas na madrugada de 31 de Outubro de 1997 na freguesia da Ribeira Quente, em São Miguel, Açores. A tragédia que arrasou uma parte antiga da localidade aconteceu há, precisamente, 13 anos. Hoje, apesar das intervenções que mudaram a face da Ribeira Quente e melhoraram a sua segurança, a verdade é que o risco de uma nova catástrofe natural, semelhante à de 1997, não desapareceu.

A ameaça está sempre presente com a aproximação da época das chuvas que "ressuscita" o fantasma de mais derrocadas e soterramentos na freguesia. Segundo o geólogo João Luís Gaspar, "não é preciso ser-se investigador para perceber que, infelizmente, a possibilidade de tal vir a repetir-se é quase certa".

Aqui, as catástrofes naturais, geralmente, repetem-se de uma forma cíclica. Prova disso é que na Ribeira Quente, com a configuração de uma fajã, já ocorreram pelo menos 20 desabamentos ao longo dos séculos, com perda de vidas humanas.

A área geográfica em torno da Povoação, e que se estende entre o Faial da Terra e Ribeira Quente, é a mais fustigada de São Miguel durante mais de 500 anos da sua história. A orografia específica, a constituição geológica das vertentes e a vulnerabilidade a chuvas intensas tornam a zona de elevado risco.

O resultado destas condições é previsível: a catástrofe que se abateu sobre a Ribeira Quente em 1997 poderá voltar a acontecer no futuro. Mesmo sem data ou local marcado. "Esperemos que esteja errado, mas a história repete-se", reforçou.

João Luís Gaspar entende que "a Ribeira Quente precisa de um plano especial de emergência e um novo olhar em termos de ordenamento". Para este geólogo, "é imperativo apostar em sistemas de aviso e alarme, repensar a questão dos acessos e reavaliar os mecanismos de resposta".

Por seu lado, o vulcanólogo Victor Hugo Forjaz defende a transferência "gradual" de famílias que residam em zonas de risco na Ribeira Quente para sítios mais seguros. "Noventa por cento da freguesia são seguros, 10 por cento são inseguras", sendo que os que aqui habitam "deveriam ser deslocalizados, nem que seja faseadamente". Aliás, sabe que existem pessoas que concordam com a ideia de que "houve más construções (por baixo de escarpas) e que gradualmente deveriam ser deslocadas para espaços nos arredores que cumpram regras de ocupação do território.

Depois da tragédia há 13 anos, foi criada uma zona-tampão para a construção. Porém, nem todos os habitantes aceitaram o repto lançado na altura pelas autoridades técnicas no sentido de abandonarem as casas situadas em locais considerados instáveis (sobretudo na parte antiga da Ribeira Quente) e passarem a viver em lugares mais seguros da freguesia ou do concelho.

Para minimizar a vulnerabilidade da Ribeira Quente, que se "mantém", Victor Hugo Forjaz entende que as ribeiras deveriam ser mais bem limpas, assim como ser construída uma via de acesso alternativa à localidade, "não só para retirar pessoas, mas também para fazer chegar alimentos" em alturas de emergência.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Rosália Amorim

Crédito: teremos aprendido a lição?

Crédito para a habitação, crédito para o carro, crédito para as obras, crédito para as férias, crédito para tudo... Foi assim a vida de muitos portugueses antes da crise, a contrair crédito sobre crédito. Particulares e também os bancos (que facilitaram demais) ficaram com culpas no cartório. A pergunta que vale a pena fazer hoje é se, depois da crise e da intervenção da troika, a realidade terá mudado assim tanto? Parece que não. Hoje não é só o Estado que está sobre-endividado, mas são também os privados, quer as empresas quer os particulares.