General demissionário integra órgão de aconselhamento do PR

Marcelo Rebelo de Sousa vai ter no Conselho Superior de Defesa Nacional dois generais em rutura um com o outro: o chefe do Exército e um dos que se demitiram

A crise em curso no Exército agravou-se ontem com a demissão de dois dos seus quatro tenentes-generais por causa de decisões tomadas há uma semana, mas só deverá ficar clarificada com a intervenção do Presidente da República (PR) e do primeiro-ministro, admitiram ontem fontes ouvidas pelo DN.

Marcelo Rebelo de Sousa aceitará ter no Conselho Superior de Defesa Nacional (CSDN), já no próximo dia 21, o chefe do Estado-Maior do Exército (CEME) e um general que se demitiu por "divergências inultrapassáveis" com aquele, pela "[forma] inqualificável" como há uma semana exonerou cinco coronéis? Ambos foram nomeados pelo Chefe do Estado e comandante supremo das Forças Armadas com intervenção do governo, pelo que António Costa também tem uma palavra a dizer, adiantaram.

O PR ainda não comentou as demissões. Mas anteontem reconheceu que a sua atuação face ao ocorrido em Tancos foi "no limite" dos seus poderes - fazendo pressupor agora um perfil de intervenção mais baixo.

O Ministério da Defesa escusou-se a comentar as demissões. Porém, o ministro Azeredo Lopes declarou na sexta-feira que o CEME "não deve em nenhuma circunstância ser demitido" e enalteceu a forma como Rovisco Duarte está a gerir a situação.

A nível partidário, Assunção Cristas (CDS) disse ser tempo de António Costa "pôr ordem na casa"; Catarina Martins (BE) afastou a demissão de Azeredo Lopes a favor de "ter as respostas todas e [...] mudar o que está mal para que não se repita".

O presidente da Associação de Oficiais, tenente-coronel António Mota, afirmou que "as tomadas de posição dos tenentes-generais são absolutamente legítimas e legais, sendo decisões que apenas a eles respeitam".

A demissão de Antunes Calçada como comandante do Pessoal (que acumulava com o cargo de secretário do CSDN) já era dada como certa na quinta-feira, mas o DN não conseguiu confirmar - e ontem ficou a saber-se que vai passar à reserva.

Já o pedido de demissão de Faria Menezes como comandante operacional, sugerida por vários militares desde a morte de instruendos no curso de Comandos e defendida após a falha de segurança em Tancos (onde quatro dos exonerados estavam sob a sua tutela direta), surge envolta em dúvida e intriga: demite-se por discordar do chefe e não passa à reserva? O general não respondeu ao DN.

Por outro lado, com três fontes diferentes a garantir ao DN que o Conselho Superior do Exército de sexta--feira acordou em "dar uma imagem de coesão e unidade" até setembro, quando o vice-CEME passa à reserva, Faria Menezes falou ao Expresso hora e meia após Antunes Calçada - que o Exército confirmou já ter entregue os papéis de exoneração e passagem à reserva - para dizer que ia apresentar amanhã o pedido de exoneração.

Além do vice-CEME, tenente-general Rodrigues da Costa, continua em funções o tenente-general Fernando Serafino, comandante da Logística. Embora com o vice-CEME a acumular agora as funções de Antunes Calçada, que também poderiam ser exercidas pelo segundo-comandante do Pessoal, certo é que em setembro passam a existir três vagas para generais de três estrelas - e pelo meio está o imbróglio da promoção a esse posto do major-general Tiago Vasconcelos, à espera de parecer da PGR.

A descoberta do furto em Tancos já acentuara uma crise iniciada no último ano, primeiro com a demissão do anterior CEME por causa de uma polémica no Colégio Militar - onde se formou Faria Menezes. Acresce que este general e Antunes Calçada são do mesmo curso do CEME, general Rovisco Duarte - que os informou esta semana que não os iria escolher para vice-CEME. Os dois generais que agora se demitiram negaram ao Expresso ter sido essa a causa da sua decisão, enquanto uma alta patente disse ao DN que ela resultou da audição parlamentar do CEME na quinta-feira.

"Estão criadas as condições para se evoluir com a saída de dois generais que desgastavam o chefe por questões de competição", admitiu um oficial na reserva sobre a agitação interna, deixando uma pergunta: "Como pode estar aos tiros com o chefe quem se deixa roubar?" Com Lusa

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