Freitas do Amaral reabre caso Camarate

Livro promete novos dados sobre Fundo do Ultramar e a investigação ao caso.

Freitas do Amaral vai publicar a sua versão sobre a forma como decorreram as investigações em torno do acidente-atentado em que morreu Sá Carneiro, de quem era então vice-primeiro-ministro, e Amaro da Costa, ministro da Defesa e número dois do CDS.

Em Camarate - Um Caso ainda em Aberto, que será lançado no Centro Cultural de Belém a 29 de Novembro (seis dias antes de se assinalarem os 30 anos da queda do Cessna que vitimou os governantes da Aliança Democrática, que juntou PSD, CDS e PPM), Freitas do Amaral "traz à luz do dia dois novos factos deste caso que marcou a história e a política portuguesa" - garante a editora, que mantém o teor do livro em segredo. Apenas se adianta que o autor "vai falar, pela primeira vez, sobre o 'caso do Fundo de Defesa Militar do Ultramar' e [também] sobre a correspondência trocada [em 1995] com o procurador-geral da República" Cunha Rodrigues.

O primeiro aspecto está relacionado com a tese de que o alvo do atentado não seria Francisco Sá Carneiro, mas Adelino Amaro da Costa. O primeiro civil que assumiu a pasta da Defesa desde o 25 de Abril, estranhando que ainda não tivesse sido extinto aquele fundo seis anos após o fim da Guerra Colonial, estaria a investigar um eventual saco azul, usado ilegalmente para o tráfico de armas entre os EUA e os beligerantes na guerra Irão-Iraque - no que ficaria conhecido como o Irangate, o escândalo de venda de armas em que participou o coronel americano Oliver North.

Depois, segue-se a polémica com Cunha Rodrigues, iniciada em 1995 e que seria difundida em 2000. Freitas do Amaral terá revelado ao PGR que estava a ser vítima de ameaças - afinal, um dos suspeitos da autoria do atentado era José Esteves, antigo mercenário ao serviço da FNLA e apontado como tendo ligações à organização terrorista de extrema-direita CODECO, que fora guarda-costas do líder do CDS até ser preso, para surpresa dos dirigentes do partido.

Nessa época, em carta particular, Cunha Rodrigues acusava o antigo vice-primeiro ministro de "não ter reagido à inércia da Polícia" na investigação. Cinco anos depois, num debate televisivo acerca de Camarate, era Freitas que acusava o ex-PGR de ter impedido a reabertura do processo.

Freitas do Amaral, que já descreveu os acontecimentos de 1980 e 1981 - do choque inicial aos 30 dias como primeiro-ministro interino, da divulgação dos resultados preliminares da Comissão de Inquérito às contradições entre o relatório da Direcção-Geral da Aviação Civil e o da Polícia Judiciária -, anunciava, em Memórias Políticas II (1976-1982), que, "quanto à minha apreciação do 'caso de Camarate' , no seu conjunto, constará do vol. III desta obra, onde terá mais cabimento, por razões de sequência cronológica".

Agora, quando essa parte do livro se autonomizou, o antigo líder do CDS - que, entretanto, prefaciou a obra de Ricardo Sá Fernandes O Crime de Camarate - poderá esclarecer alguns factos que, após três décadas e oito comissões parlamentares de inquérito, terá conseguido esclarecer.

Sobretudo por que motivo desapareceu a informação do embaixador em Londres, que, logo em Dezembro de 1980, informava que a Scotland Yard suspeitava de que Lee Rodrigues pudesse ter cometido o atentado e oferecia a sua colaboração às autoridades portuguesas. Anos mais tarde, Freitas descobriu que não existia cópia desse documento no Ministério dos Negócios Estrangeiros e que nem sequer tinha sido junto ao processo o telegrama onde tinha exarado um despacho para a Polícia Judiciária.

E, também, por que motivo só foi ouvido, "pela primeira e única vez", no Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa a 6 e a 11 de Julho de 1995 - isto é, "quase 15 anos após o acidente de Camarate".

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