Fim de respiração boca a boca para 'socorristas'

Estudo mostra que massagem cardíaca é mais eficaz quando não há manobras de ventilação. Organismos internacionais dizem que regra só é válida para quem não sabe prestar este socorro

As novas regras para os primeiros socorros defendem que quem não tem formação em reanimação não deve fazer respiração boca a boca num doente em paragem cardíaca. Para os restantes, o salvamento continua a incluir esta manobra juntamente com a massagem cardíaca, por ser mais eficaz, dizem os especialistas.

A revisão das orientações surgiu na semana passada e depois da publicação de um estudo que garante que a massagem cardíaca feita durante um ataque do coração é mais eficaz sem a respiração boca a boca.

A polémica investigação, publicada no Journal of the American Medical Association (JAMA), foi feita de Janeiro de 2005 a Dezembro de 2009 e envolveu 4415 pessoas com mais de 18 anos que tiveram um ataque cardíaco fora do hospital. Deste total, 2900 (65,6%) não receberam qualquer auxílio durante o ataque, 666 (15,1%) foram submetidas a manobras de reanimação convencional e 849 (19,2%) apenas à massagem cardíaca.

A taxa de sobrevivência foi de 5,2% para quem não recebeu manobras de reanimação e de 7,8% para os que foram sujeitos ao salvamento convencional. Mas atingiu os 13,3% naqueles que apenas tinham tido massagem cardíaca.

A investigação causou polémica. Contudo, o presidente do Conselho Português de Ressuscitação (CPR) alerta que, à semelhança da associação europeia, as novas regras da American Heart Association (AHA) dizem algo diferente. "Os reanimadores que tenham treino em reanimação devem fazer massagem e ventilação com um rácio de 30 compressões por duas ventilações", explica Rui Araújo. "Os que não têm treino nenhum, e contactam pela primeira vez com uma situação destas, podem fazer apenas massagem."

A alteração das recomendações é justificada com o facto de que "muitas pessoas não são reanimadas porque os leigos têm relutância em fazer a respiração".

O presidente do CPR recorda que "há pessoas que por razões culturais, religiosas ou sociais não fazem a ventilação" boca a boca. Por isso, as linhas de orientação definidas também pelo Conselho Europeu de Ressuscitação, e que se aplicam a Portugal, prevêem que nestas duas situações possa não existir recurso à ventilação. "Contudo, nas crianças a respiração boca a boca é fundamental", insiste Rui Araújo .

Para o presidente do Conselho Português de Ressuscitação , "o estudo é mais uma opinião que as entidades mundiais ouvem e analisam". Rui Araújo recorda que as regras de orientação são revistas de cinco em cinco anos e que, ao longo desse tempo, os responsáveis do International Liaison Committee on Resuscitation (ILCOR) - que articula as principais organizações mundiais de ressuscitação - analisam os estudos publicados.

"A entidade coloca questões e, recorrendo à literatura médica procura encontrar novas respostas que depois são aplicadas internacionalmente", adianta.

Cerca de 75% das paragens cardíacas acontecem em casa. E aí as probabilidades de recuperação do doente sem manobras de ressuscitação são de 3%. "As probabilidades de recuperação, se a vítima tiver acesso a suporte básico de vida e a desfibrilhação no espaço de três a cinco minutos, são de 60 a 70%", conclui o especialista.

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