Fim dos copos de plástico "não depende só da boa vontade das cervejeiras"

Câmara está a conversar com governo sobre estratégias para penalizar ou desincentivar prática, como se fez nos festivais, revela Duarte Cordeiro, vice-presidente da autarquia

Ao nascer do Sol no Cais do Sodré, o cenário é sempre o mesmo: os moradores que saem para uma corrida matinal ou para ir comprar pão, por exemplo, têm de avançar por entre uma maré de copos de plástico e tapar o nariz para sobreviver ao cheiro de álcool e urina misturado no ar. É o resultado menos glamoroso das oito horas de diversão, música e convívio que centenas de pessoas aproveitaram na Rua Cor-de-Rosa. Um cenário que a Câmara de Lisboa está empenhada em apagar desta e de outras zonas tipicamente destino de saídas à noite, como o Jardim de Santa Catarina ou o Arco do Cego.

"Já o fizemos nos festivais de verão e com sucesso. Entendemos que a logística é diferente, porque não são só três ou quatro dias, mas é possível acabar com os copos de plástico não reutilizáveis", diz ao DN o vice-presidente, Duarte Cordeiro. O vereador com o pelouro dos serviços urbanos (em que se inclui a higiene e resíduos) confirma mesmo que já há conversações em curso com o governo nesse sentido. Apesar de ser uma situação específica de determinadas ruas da cidade, a câmara não tem poderes para mais do que retaliar reduzindo o horário de funcionamento dos bares, por exemplo, explica. E aqui é preciso mais.

"A solução tem de passar por alguma forma de penalização ou medida que desincentive a utilização deste tipo de copos de plástico mais fininho, que são extremamente poluidores." E por isso mesmo as propostas que Duarte Cordeiro aponta passam pela criação de um mecanismo de taxas de utilização ou um fundo ambiental. "Não podemos depender só da boa vontade das cervejeiras", sublinha o autarca, "e se necessário teremos mesmo de forçá-las a seguir esse caminho".

O vereador socialista recorda que já houve medidas tomadas nesse sentido - "no Arco do Cego, dissemos às cervejeiras que só aceitaríamos que continuassem a vender se financiassem a limpeza permanente do local e elas contrataram esses serviços" - mas não resolviam o problema. Agora a ambição é maior: "Proibir os copos de determinada gramagem ou desincentivar fortemente o seu uso." Dos contactos feitos, Duarte Cordeiro diz que sente abertura das cervejeiras para colaborar numa solução alternativa, até porque há questões de imagem das próprias empresas, mas não são tão fortes que ultrapassem a vertente comercial e a vontade de aumentar as vendas. Razão pela qual, numa altura em que o governo tem em mãos o dossiê da fiscalidade verde, a câmara decidiu levar esta pasta para a mesa de negociações.

A ideia de acabar com os copos de plástico na noite lisboeta partiu, segundo O Corvo (site especializado em assuntos da capital), de uma recomendação de dois deputados municipais independentes, Patrícia Gonçalves e Paulo Muacho, tendo sido aprovada na Assembleia Municipal em novembro, praticamente sem contestação. A principal divergência prendeu-se com o envolvimento do Parlamento, no sentido de criar legislação geral para esse fim, que o CDS-PP considerou não ter cabimento num assunto que respeita diretamente à cidade de Lisboa - e especificamente às áreas de diversão noturna.

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