Figuras das artes contra saída de Nuno Artur Silva

Dezenas de personalidades pedem explicações sobre o afastamento do administrador com o pelouro dos conteúdos.

Um conjunto alargado de personalidades das mais variadas artes escreveu uma carta ao primeiro-ministro, ministro da Cultura e presidente do conselho de Administração da RTP a contestar a não recondução de Nuno Artur Silva, o administrador com o pelouro dos conteúdos.

"É para perceberem que estamos atentos ao futuro e que queremos mais informação", disse ao DN Aida Tavares, programadora que é uma das promotoras deste movimento em prol de Nuno Artur Silva. Na carta, os subscritores dizem não entender a posição do Conselho Geral Independente da RTP, num comunicado de 25 de janeiro, quando diz existir uma "irresolução do conflito de interesses entre a sua posição [de Nuno Artur Silva] na empresa e os seus interesses patrimoniais privados", mas ao mesmo tempo também confessa "não ter [sido] verificado que isso tenha sido lesivo da empresa, no decurso do seu mandato".

"É uma deliberação antagónica", frisa Aida Tavares, já que "se não há nenhum ilícito na sua gestão porque não é reconduzido?"- pergunta a programadora. Garante que havia satisfação com o caminho que a RTP estava a trilhar sob a liderança de Nuno Artur Silva.

"Aguardámos uns dias, continuamos sem entender. Enquanto cidadãos interessados na coisa pública, enquanto profissionais e espetadores, pedimos explicações. A que se deve esta decisão? A explicação dada no comunicado não nos esclarece. Queremos entender o porquê e perceber a razão. Conhecem alguém mais competente para este cargo do que Nuno Artur Silva? Nós, não", refere a carta.

Subscrevem estas dúvidas e pedem explicações dezenas de realizadores, programadores, atores, encenadores e coreógrafos, músicos, compositores e intérpretes, editores, autores e jornalistas, comentadores, profissionais do cinema, dos palcos, da rádio , da imprensa e da televisão.

Entre os subscritores, há nomes como o do fadista Camané, de Carlos Tê, escritor de canções, de Claúdia Verejão , realizadora, de Clara Ferreira Alves, jornalista, e de Cristina Carvalhal , atriz.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.