Ferro defende poder judicial "respeitável e prestigiado"

Presidente da AR pede responsabilidade a políticos, magistrados e comunicação social. E apela a que se fale a uma só voz na Europa

O presidente da Assembleia da República deixou ontem um sério apelo aos poderes político e judicial e também um recado à comunicação social. Eduardo Ferro Rodrigues considera que o exercício dessas funções implica "a maior delicadeza" e "sentido de responsabilidade social permanente", pelo que lançou o repto: "Não se pode esperar dos portugueses respeito por quem não se dê ao respeito ou por quem não respeite as regras e as normas do Estado de direito democrático."

Na cerimónia comemorativa do 42.º aniversário do 25 de Abril, no Parlamento - em que se confirmou o regresso dos capitães da Revolução dos Cravos, seis anos depois -, e com vários casos mediáticos a marcar a atualidade, Ferro salientou que a democracia também depende "de um poder judicial respeitável e prestigiado" e de um jornalismo "pluralista e respeitador das regras deontológicas".

Isto porque o presidente do Parlamento vê com preocupação "os sinais" dos sucessivos inquéritos à opinião dos portugueses acerca do nível de confiança nas instituições democráticas.

Ferro saudou também os trabalhos parlamentares, já iniciados, para reforma do sistema político e de reforço da transparência da classe política. Mas deixou o alerta: "A transparência não se confunde com populismo. Pelo contrário, o reforço da transparência é o melhor antídoto contra o populismo."

Ora, os avisos à navegação, da esquerda à direita, não ficaram por aí. Ferro quer unidade em torno de uma nova ideia para a Europa. "Debatamos tudo, mas procuremos depois falar a uma só voz em nome da Europa que queremos: mais centrada na solidariedade social do que nas décimas das finanças públicas", afirmou.

Em todo o caso, à esquerda, o registo foi outro. E, para BE e PCP, da Europa não sopram bons ventos, o que também não augura bons casamentos. Os bloquistas, pela voz do deputado Jorge Costa, recusaram votar ao esquecimento o tema da dívida, falando numa outra, mais importante para o partido liderado por Catarina Martins: para com aqueles que "vivendo em privação não vive[m] em democracia". "São esses os legítimos credores do país", explicou o deputado Jorge Costa, para quem "numa democracia verdadeira" esses credores "não são as instituições financeiras ou fundos obscuros", reforçou o parlamentar.

Já Rita Rato notou que o PCP não abdica da recuperação de "instrumentos indispensáveis ao desenvolvimento" do país, nomeadamente orçamentais e monetários. Traduzindo: rasgar o Tratado Orçamental e abandonar o euro. A deputada comunista condenou "veementemente" as "tentativas deliberadas" vindas de Bruxelas de impedir a "recuperação de direitos e rendimentos, como ainda recentemente a chantagem para não aumentar o salário mínimo nacional".

À margem desse tema, o deputado do PAN, André Silva, ancorou-se no exemplo do Butão para sugerir critérios mais "humanistas" na definição de riqueza. E porque "a agenda política também tem coração" apontou uma espécie de felicidade interna bruta, indicador criado naquele país asiático.

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