Fernando Lima: "Os amigos agora chamam-me camarada Taor"

Ex-assessor de imprensa de Cavaco Silva nega ligações ao KGB, apesar de o seu nome surgir nas fichas
do Arquivo Mitrokhin, escritas por arquivista a partir dos dados enviados pelo primeiro jornalista soviético em Lisboa

Fernando Lima reage com paciência de chinês à mais recente história jornalística em torno do seu nome: ter sido agente do KGB no pós-25 de Abril. "Os amigos agora chamam-me camarada Taor", diz ao DN com humor.

A última edição do semanário Expresso, num artigo sobre as informações contidas no Arquivo Mitrokhin - nome do arquivista dos serviços secretos soviéticos que em 1992 desertou para o Ocidente - relativas a Portugal, publica um conjunto de quatro fotos de alegados "jornalistas de confiança" do KGB em que na legenda se lê: "Fernando Lima, ex-diretor do Diário de Notícias e assessor de imprensa de Cavaco Silva, nome de código Taor."

Na página seguinte, ímpar, surge um destaque em letras grandes em que se lê: "Fernando Lima era amigo de Kovaliov, que "mais tarde veio a saber-se que era coronel do KGB"."

Este oficial é Eduard Kovaliov, chegado a Lisboa a seguir ao 25 de Abril de 1974 como jornalista e primeiro correspondente da agência TASS. Em plena Guerra Fria, "a revolução portuguesa estava a provocar o maior interesse na informação internacional e um dos países mais interessados não podia deixar de ser a URSS", conta Fernando Lima, que em 1974 era oficial miliciano e estava no gabinete do ministro da Defesa, coronel Firmino Miguel (futuro chefe do Exército).

Fernando Lima, que já era jornalista profissional quando se deu o 25 de Abril, frisa: "É abusivo deduzir que, pelas conversas que na altura fomos tendo, trabalhasse para aquele serviço secreto. Nunca lhe perguntei se tinha qualquer ligação aos serviços de informações soviéticos mas, pelas perguntas que me fazia nas nossas conversas, hoje não tenho dúvidas de que era uma das suas fontes de informação em Portugal."

O "camarada Taor" relativiza a forma como viu noticiada a inclusão do seu nome no Arquivo Mitrokhin e o facto de o artigo ser publicado três dias após Cavaco Silva - que o marginalizou mas manteve em Belém, após uma história de alegadas escutas ao palácio em que Lima surgiu como autor - cessar funções: "Penso que [isso sucedeu] pelo meu percurso no jornalismo e na política."

"Não acredito que haja outras motivações. A minha relação com o Eduardo Kovaliov, conhecida dos meus amigos, foi igual à relação que tive com jornalistas e diplomatas ocidentais naquele período. A única curiosidade neste processo foi ele ter confessado mais tarde, num livro, que era "coronel do KGB"", enfatiza Lima.

Note-se que a relação do jornalista com Eduard Kovaliov já tinha sido contada em abril de 2012 no jornal Sol, sob o título "Um espião russo na vida de Fernando Lima". Acresce que, como assessor do primeiro-ministro a partir de 1986, fora credenciado - leia-se ter o seu passado visto a pente fino - pela NATO e EUA devido aos documentos classificados que chegavam a São Bento.

Em 1982, como diretor da agência noticiosa ANOP, "fui convidado pela embaixada americana para integrar um grupo de jornalistas europeus que se deslocaram aos EUA" a fim de preparar uma visita do presidente Ronald Reagan à Europa, lembra Lima. Um deles era o francês Jacques Amalric (Le Monde), antigo correspondente em Moscovo. "Começámos por Fort Bragg", um dos maiores quartéis do Exército e sede da "força de reação rápida criada para intervir no Médio Oriente".

"Depois fomos recebidos na Casa Branca, onde fizemos uma entrevista coletiva com o vice-presidente George Bush, [a quem] tive oportunidade de colocar uma questão sobre as Lajes", recorda Fernando Lima, evocando outro episódio: "Em 1988 fui novamente convidado pelos EUA para uma visita de um mês" e, entre outros locais, "estive na Casa Branca, no Departamento de Estado e no Pentágono."
Recuando à segunda metade dos anos 1970, diz: "Havia um ambiente na comunidade jornalística estrangeira que nos estimulava os contactos" e, após décadas de isolamento promovidos pelo Estado Novo, "era dos interessados na informação que circulava nesse meio, bem como na comunidade diplomática."

Por isso é que "falava com jornalistas e diplomatas de várias nacionalidades, mas não sabia se podiam ser mais do que isso", recorda Fernando Lima, citando vários correspondentes então acreditados em Lisboa: o inglês Richard Wallis (Reuters), o sul-africano Ken Pottinger (BBC, Newsweek e Daily Telegraph), o espanhol Diego Carcedo (TVE), o chinês Wang Zhigen (Agência Nova China), o alemão Horst Hano (ARD) ou uma "alemã lindíssima, loura, da Der Spielgel."

"Não podia imaginar que me dessem tanta importância. As minhas conversas não eram mais do que aquilo que qualquer jornalista podia e pode dizer, como conhecedor da situação política portuguesa. Dos meus interlocutores obtinha a perceção sobre o processo político português que, no essencial, não deveria ser diferente do que transmitiam para os seus países", diz.

Voltando a Kovaliov: "Em 2004, descobriu-me na direção do DN e escreveu-me um e-mail simpático, em que era patente a boa recordação do tempo em que vivemos a Revolução do 25 de Abril... correspondi com outro e-mail, a lembrar momentos que soubemos apreciar na nossa boa convivência. O Eduardo foi alguém que gostei de conhecer no meu percurso de vida. A sua escola de raciocínio era completamente diferente da nossa e isso ajudou-me a entender melhor as lógicas de análise e decisão do seu país. Ainda hoje guardo as matrioscas que me ofereceu num dos nossos primeiros encontros", conclui o "camarada Taor".

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