Faz sentido uma prova logo no 2.º ano? Professores duvidam

Ministério esclarece que este ano é o meio do 1.º ciclo, mas docentes dizem que os alunos ainda sabem pouco nesta idade.

Devem crianças de 8 anos e no início do percurso escolar fazer provas de aferição? Os professores começam a questionar esta escolha feita pelo Ministério da Educação, agora que o regresso das provas de aferição e o fim dos exames no 4.º e 6.º anos são uma realidade. Para os especialistas, o 2.º ano será ainda muito inicial da escolaridade para só se voltar a avaliar os conhecimentos no 5.º ano e alguns questionam se não seria mais útil fazer essa aferição no 3.º ano.

Questionada pelo DN sobre a escolha deste ano letivo, a tutela justifica a escolha com "a localização exata do 2.º ano a meio do 1.º ciclo". Acrescentando que se pretende que "a passagem de cada aluno pelos instrumentos de aferição tenha uma dupla finalidade: por um lado, a geração de dados globais que permitam a regularização e monitorização do sistema; por outro, um contributo para a identificação de necessidades específicas de cada aluno. Uma aferição no momento final permite monitorizar o sistema, mas já não contribui para que a escola e os professores possam trabalhar especificamente as dificuldades detetadas para cada estudante".

No entanto, o professor do 2.º ciclo (5.º e 6.º anos) e historiador de Educação Paulo Guinote acredita que a diferença entre o 2.º e o 5.º anos, quando se realizam as duas primeiras provas de aferição, "não permite que se tire conclusões. Porque no 5.º ano, quando voltarem a repetir-se, já são outros professores a dar a matéria". Daí que defenda que "se devia fazer uma segunda aferição no 1.º ciclo ou então fazer no 3.º ano".

O docente acredita também que o 2.º ano de escola "tem ainda um nível muito incipiente de conhecimentos para se estar a avaliar".

É nesse sentido que a Associação Nacional de Professores de Português (Anproport) escreve no parecer sobre a avaliação no ensino básico, a que o DN teve acesso, considerar que "a prova de aferição do 2.º ano não dispensa a do 4.º ano". Uma vez que no 1.º ciclo "é muito grande a diferença, no que ao Português diz respeito, entre os conteúdos e objetivos dos dois primeiros anos e os dos dois últimos anos". A que se junta ainda o argumento de que "o 4.º ano é o do final de um ciclo em que há monodocência e que tem características muito diferentes das do ciclo seguinte, pelo que se impõe uma avaliação externa no final desse ciclo".

Ainda também com dúvidas sobre a escolha deste ano de escolaridade - quando os alunos têm 8 anos de idade - estão também a Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) e a Associação de Professores de Matemática (APM).

O presidente da SPM, Fernando Pestana da Costa admite: "Ainda não sabemos se o 2.º ano é o ano ideal para aferir as dificuldades. Talvez o 3.º ano fosse mais indicado". Enquanto a presidente da APM, Lurdes Figueiral, revela que a associação está "a pensar sobre esta questão", que "levanta dúvidas". "Neste momento estamos a avaliar o currículo para perceber a pertinência de se fazer a aferição neste ano. Ainda temos dúvidas se será ou não mais vantajoso fazer no 2.º ano".

No comunicado, divulgado na sexta-feira, com a apresentação do novo modelo integrado de avaliação do ensino básico, o Ministério da Educação explicava que as provas de aferição visam "acompanhar o desenvolvimento do currículo" ao mesmo tempo que fornece "informações detalhadas à escola, aos professores, aos encarregados de educação e aos alunos sobre o desempenho destes". E, por fim, potenciam "uma intervenção pedagógica atempada, dirigida às dificuldades específicas de cada aluno". No mesmo documento, o ministério liderado por Tiago Brandão Rodrigues justificava ainda os anos escolhidos para as provas por serem "antes da conclusão de cada ciclo de modo a poder agir atempadamente sobre as dificuldades detetadas".

A questão para os professores é saber como é que se mede o resultado dessa intervenção pedagógica ao longo do 1.º ciclo, uma vez que a segunda prova de aferição é feita num ciclo de ensino já com uma estrutura muito diferente (com vários professores e um leque mais alargado de disciplinas). Neste novo modelo, os alunos fazem provas de aferição a cada três anos.

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