Família acusa escola de levar professor ao suicídio

Irmã de Luís Carmo acusa escola de Fitares de ignorar apelos do professor. Alunos, docentes  e pais afirmam que EB 2,3 tem bom ambiente e poucos casos de indisciplina, e lembram feitio reservado do docente .

"Para mim, é claro que o motivo próximo [para a morte do meu irmão] foi a escola, as péssimas condições de trabalho que tinha, a situação disciplinar com que estava lidar." A conclusão é de Maria Filomena Carmo, irmã de Luís Vaz Carmo, o professor que a 9 de Fevereiro pôs termo à vida, na Ponte 25 de Abril, deixando uma nota no seu computador portátil onde relacionava esse passo extremo com a "falta de respeito" de que seria alvo por uma das suas turmas.

A turma em causa era o 9.º B, mais especificamente "três ou quatro alunos" que, segundo Filomena Carmo - também professora, no Algarve - reincidiam nas provocações sem que fosse dada resposta às "várias denúncias" feitas pelo irmão (terão sido sete queixas escritas).

"O problema não era a turma", ressalvou. "Todas as turmas têm alguns alunos assim. O problema foi a escola não ter feito nada para punir os responsáveis, dentro dos poderes que lhe são concedidos, deixando o meu irmão continuar a ser sujeito àquele desgaste emocional. Quando aconteceu [a morte], ele já tinha posto os papéis da baixa há uns dias porque não aguentava." A irmã de Luís Vaz Carmo não hesitou em apontar o dedo à directora da escola - que ontem, apesar das tentativas feitas presencialmente e por telefone, não quis falar com o DN. "Ela chegou a dizer-lhe que não podia dar ordem de saída da sala a alunos com tanta frequência, e que devia ver como os colegas geriam as suas situações de conflito."

A directora é ainda acusada de não ter levado à reunião do conselho pedagógico uma carta que lhe foi enviada pela família, pedindo que o caso fosse debatido: "Nós nunca quisemos pôr uma queixa, porque sabíamos que não era isso que traria o meu irmão de volta", explicou. "A única coisa que fizemos foi enviar uma carta ao conselho pedagógico, a 17 de Fevereiro, a pedir uma reflexão sobre isto. Viemos a saber que quando houve reunião, a directora, que é também presidente do conselho pedagógico, não referiu a carta".

Na EB 2,3 de Fitares, a súbita atenção dada à escola gerou indignação em pais e professores. Pela manhã, vários encarregados de educação contestavam a associação do suicídio à indisciplina.

O director regional de Educação de Lisboa, Joaquim Leitão, visitou também a escola, da qual saiu anunciando um inquérito para apurar o sucedido, mas também defendendo ser "do conhecimento público" que o docente "tinha uma fragilidade psicológica desde há algum tempo".

Uma afirmação que indignou a irmã do professor: "Fiquei espantada por ver o senhor director-geral tirar aquelas conclusões antes do inquérito", confessou.

Entre os estudantes, as opiniões dividiam-se em relação a Luís Carmo, que estava na escola há apenas três meses: "Era um professor 'bué fixe. As aulas dele eram cinco estrelas", contou uma aluna do 8.º ano, enquanto outra colega confessava que este "parecia estar deprimido".

Ana Sofia Ribeiro, uma professora que - tal como Luís Carmo - chegou à escola este ano, e confessou "conhecer mal" o colega, concordou na defesa do "bom ambiente" da EB 2,3, "sobretudo quando comparada com outras desta área".

A docente lamentou a morte de Luís Carmo, mas também recordou uma situação semelhante, que não teve o mesmo impacto mediático: "Na Secundário Luís de Freitas Branco, onde estive o ano passado, também houve um colega que se suicidou."

Outra professora, que não quis ser identificada, defendeu que o colega "era uma pessoa que não estava bem, que não comunicava com ninguém", e que teria problemas anteriores: "A família tentou ajudá-lo, o psicólogo tentou ajudá-lo, a própria escola tentou."

Também entre os pais, rejeitava-se a ideia de os problemas com alunos terem motivado a morte. "A minha filha é do 8.º ano, tinha o professor na turma dela, e violência nem vê-la", disse Arménio Monteiro, que se confessou "estupefacto" com as notícias: "A escola terá alguns problemas, mas problemas graves nunca vi", afirmou. Quanto ao professor, disse recordá-lo com "um senhor sempre muito calado".

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