Falta de pilotos leva companhias a baixar critérios de admissão

Falta global de profissionais leva a que os mais experientes sejam recrutados para o estrangeiro com condições aliciantes

Até 2035, a aviação vai precisar de 617 mil novos pilotos em todo o mundo, segundo dados revelados pela Boeing. A formação é dispendiosa e pouco acessível e as companhias aéreas em todo o mundo têm vindo a facilitar a colocação de novos pilotos, descendo os requisitos de admissão para cada vez menos horas de experiência de voo: "Não há qualquer hipótese de formar tantos pilotos. Estamos preocupados com até que ponto irão descer os requisitos na formação e na admissão", admite ao DN/Dinheiro Vivo Miguel Silveira, presidente da Associação Portuguesa de Pilotos de Linha Aérea (APPLA).

"Antigamente, um copiloto tinha de ter 1500 horas de voo", recorda Cassiano Rodrigues, fundador da única escola a norte, a Nortávia. "O ensino melhorou, os simuladores também, mas as exigências foram diminuindo. Para entrar na TAP, já só pedem 300 horas", nota.

Na verdade, no concurso a decorrer para a admissão de 40 pilotos, a TAP exige agora 250 horas, confirmou ao DN/DV fonte da empresa. Serão pilotos júnior, que terão de voar acompanhando pilotos mais experientes, que estão a ser os mais aliciados por companhias aéreas estrangeiras, especialmente asiáticas, que vêm recrutar a Portugal. "É normal que a TAP diminua os requisitos, porque também lá fora têm variado, em função das necessidades", analisa Miguel Silveira. Para a APPLA, a menor exigência é "preocupante, tal como para os organismos internacionais e as próprias companhias aéreas". O presidente da APPLA confirma que, de Portugal, "têm saído mais pilotos para o estrangeiro. Em termos de impostos as condições são mais favoráveis". Mas "mais preocupante são os seniores que decidem ir embora com receio pelo modelo de privatização. A TAP até paga salários semelhantes aos oferecidos lá fora, mas o Estado leva 50% em impostos".

A pilotos com um mínimo de três mil horas, a chinesa Spring Airlines oferece um salário anual de cerca de 240 mil euros líquidos, com 40 dias de férias pagas, viagens e horários de trabalho de apenas cerca de 160 dias para contratos de três anos, renováveis. A Emirates - já a maior empregadora de portugueses no Dubai - oferece salários anuais a rondar cem mil euros limpos e paga casa, seguro de vida e de saúde e colégio aos filhos dos pilotos. Na Europa, as companhias low-cost pagam salários um pouco menores, sujeitos a impostos, mas oferecem a possibilidade de serem promovidos a comandantes em apenas três ou quatro anos. Na TAP, os salários rondam os nove mil euros mensais. A companhia de bandeira nacional assegura que, excetuando reformas, no ano passado as saídas de pilotos não representaram mais do que 1,2% do total de 944 pilotos, quando nos últimos três anos admitiu 145.

Porém, o anuário mais recente da Autoridade Nacional da Aviação Civil (ANAC) revela que, entre 2014 e 2015, Portugal perdeu 834 (17%) de um total de 4868 pilotos, nomeadamente 142 pilotos de linha aérea (7,5% do segmento), 438 pilotos comerciais (25,3% desta categoria) e 228 pilotos privados (52,3% do segmento).

Segundo fonte da ANAC, as variações podem dever-se a reformas, mas também a falta de revalidação das licenças ou transferência de profissionais para o estrangeiro, onde a licença portuguesa é substituída. E acrescenta que o país forma, anualmente, cerca de 200 pilotos, mas muitos pedem licenças noutros países, tornando-nos "exportadores" de pilotos profissionais. Na G Air, a maior escola de pilotos em Portugal, nos últimos dois anos ingressaram cem a 150 alunos em cursos de piloto orientados para companhias aéreas com a duração média de 16 meses. Nélson Ferreira, vice-presidente da escola que se internacionalizou em 2013, diz que no mesmo período "foram colocados perto de 60 alunos na Ryanair, 20 na TAP, dez na easyJet, dez em companhias do Médio Oriente e 30 em outras companhias".

Exclusivos

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.