"Ficar em casa sem fazer nada". Falta de acessibilidades impede jovem deficiente de estudar

"Infelizmente a situação não é única", referiu a presidente da Associação Portuguesa de Deficientes. Ricardo Barata já escreveu uma carta a Marcelo Rebelo de Sousa

Ricardo Barata terminou o 12.º ano mas a vida numa cadeira de rodas impede-o de ir para a Universidade, porque a falta de transporte e estações de Metro sem elevador obrigam-no a "ficar em casa sem fazer nada".

Victor Barata, o avô de Ricardo, resume assim o drama do neto: "O Ricardo nunca perdeu ano nenhum, passou todos os anos com boas notas. E agora fez o 12.º ano e não consegue entrar na Universidade por causa dos transportes, nem de casa para o Metro nem depois à saída do Metro, por não ter elevador".

O jovem vive em Odivelas, arredores de Lisboa, e esta terça-feira demonstrou a dificuldade numa das entradas do Metropolitano de Lisboa, junto da Cidade Universitária, quando centenas de jovens saiam das aulas e desciam as escadas de acesso à plataforma, uma impossibilidade para ele.

A iniciativa foi só uma das tentativas de Ricardo de prosseguir os estudos e foi organizada pela Associação Portuguesa de Deficientes (APD), em conjunto com a Comissão de Utentes dos Transportes de Lisboa.

O jovem de Odivelas, como contou aos jornalistas Ana Sezudo, presidente da APD, contactou a associação para "tentar perceber que trâmites teria de seguir para conseguir chegar à Faculdade", depois de ter pedido ajuda às Câmaras de Odivelas e de Lisboa, "que lhe deram uma resposta negativa".

Sem ajudas, "tentou perceber qual o percurso acessível a nível de transportes públicos", mas se na estação do Metro em Odivelas há elevador tal não acontece na estação da Cidade Universitária, disse a presidente da APD. A associação, contou Ana Sezudo, contactou então os Ministérios da Educação e do Ensino Superior, a Secretaria de Estado para a Inclusão e o Instituto Nacional para a Reabilitação. Ainda não recebeu qualquer resposta.

"Aqui estamos para denunciar, que este é apenas um exemplo, mas é um exemplo para muitos outros que existem nesta cidade, muitos cidadãos com deficiência que acabam por ter as suas vidas limitadas porque os serviços públicos não estão preparados", disse Ana Sezudo, também ela de cadeira de rodas, à porta da estação do Metro da Cidade Universitária.

Infelizmente a situação não é única

A responsável explicou que "infelizmente a situação não é única", que são poucas as estações de Metro com elevadores, e que os que existem estão muitas vezes avariados. E quanto à acessibilidade em todas as estações a empresa fala de constrangimentos financeiros, acrescentou Ana Sezudo.

"Depois de quase 20 anos de legislação sobre acessibilidade em Portugal, manter situações deste tipo... e esta estação é um exemplo porque no ano em que foi inaugurada já existia legislação sobre acessibilidades... não há sequer essa desculpa e já devia estar há muito tempo adaptada", diz aos jornalistas. E diz também que os cidadãos deficientes do interior do país ainda vivem situações piores, onde os transportes públicos não têm acessibilidade, isolando-os ainda mais.

Por isto, as duas associações juntaram-se hoje e exibiram faixas a pedir mais e melhores acessibilidades, uma forma de sensibilizar para o problema, ainda que não pareça ter sensibilizado nenhuma ou quase nenhuma das muitas pessoas que entravam e saíram da estação de Metro.

Ricardo Barata também o queria fazer, entrar e sair. Gostava de estudar Ciência Política e até já escreveu uma carta ao Presidente da República a falar-lhe do seu caso.

O avô tem esperança que tudo se resolva e que no próximo ano o Ricardo possa entrar na Universidade. Caso não consiga "será mais um que vai ficar em casa, sem aprender mais nada".

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