Falhas em neurocirurgia com mais de dois anos levam a demissão

Anterior governo prometeu em setembro de 2013 ultrapassar constrangimento das urgências "em breve". Mas tudo se manteve e ontem três gestores culparam os cortes na saúde pela morte de um homem de 29 anos em São José

Há mais de dois anos que o problema da falta de assistência em neurocirurgia aos fins de de semana nos hospitais de Lisboa se arrasta. Falhas que levaram agora à morte de um homem de 29 anos, depois de três dias à espera de uma operação a um aneurisma cerebral no hospital de São José.

Ontem, o presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo e os administradores hospitalares de S. José e Santa Maria apresentaram a demissão em bloco, queixando-se dos cortes orçamentais e por não terem conseguido responder ao caso de David Duarte. O Ministério da Saúde e a Inspeção Geral das Atividades em Saúde já abriram investigações.

David Duarte, residente em Santarém, deu entrada na sexta-feira, 11 de dezembro, no hospital São José. Segundo a carta da sua namorada, publicada no site do jornal Expresso, logo naquele dia à noite, foi transmitido à família que "o David teria de aguardar até segunda para ser operado". No dia seguinte, sábado, 12 de dezembro, o hospital terá referido que a "melhor opção" seria manter David no São José e não transferi-lo para outra unidade hospitalar. David passou o domingo, 13 de dezembro, no hospital, acabando por morrer no dia seguinte ainda antes da operação.

Ontem, no que estava anunciado como sendo uma conferência de imprensa, mas que se resumiu à leitura de uma declaração, Luís Cunha Ribeiro, presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT), declarou que os "cortes" verificados na saúde "não deram a possibilidade de dar resposta" a uma situação como a de David Duarte. Ao mesmo tempo, anunciou que o atual ministro da Saúde, Adalberto Fernandes, deu autorização para, eventualmente, os hospitais pagarem aos médicos especialistas de forma a que estes assegurem os fins de semana e feriados: "A partir de agora, foi autorizado que passe a haver resposta para situações deste género. Hoje, doentes em situações semelhantes não terão o mesmo destino do que ocorreu há uma semana".

Ontem, ao DN, o Centro Hospitalar de Lisboa Central (CHLC), ao qual pertence o Hospital de São José, confirmou que a prevenção aos fins de semana de neurocirurgia vascular está suspensa desde abril de 2014. Como a prevenção ao fim de semana é de regime voluntário, alguns especialistas optaram por deixar de a fazer, devido à alteração dos regimes remuneratórios. Embora existam dois neurocirurgiões no Hospital de São José 24 horas por dia, a neurocirurgia de urgência de aneurismas é "altamente especializada", disse ao DN porta-voz do CHLC, e requer uma equipa "especialmente habilitada" para a realizar "com resultados satisfatórios".

Já em setembro de 2013, o anterior ministro da Saúde, Paulo Macedo, disse ao Bloco de Esquerda esperar que o "constrangimento" da falta de neurocirurgiões durante o fim de semana fosse "ultrapassado brevemente", já que não havia acordo entre os médicos e os respetivos conselhos de administração dos hospitais para o pagamento desse trabalho.

Demissão por falta de resposta

Luís Cunha Ribeiro anunciou ontem ter apresentado ao ministro a sua demissão, no que foi seguido por Teresa Sustelo, de S. José, e por Carlos Martins, de S. Maria. Segundo informações recolhidas pelo DN, a demissão deste gestor estará relacionada com o facto de ter sido feito um pedido à sua unidade hospitalar para responder ao caso de David Duarte, mas não ter conseguido dar resposta.

Luís Cunha Ribeiro, lamentando o ocorrido, endereçou condolências à família do jovem que morreu e disse que a ARSLVT solicitou ao conselho de administração do Centro Hospitalar Lisboa Central a instauração de um inquérito, o mesmo fazendo junto da Inspeção-Geral da Saúde.

"Enquanto presidente da ARS e com responsabilidade em todos os hospitais [da ARS de Lisboa e Vale do Tejo] acabei de apresentar a minha demissão ao ministro da Saúde", disse a seguir, na curta declaração, explicando que não responderia a perguntas dos jornalistas por o caso estar a ser alvo de um inquérito. Sendo assim, todas as dúvidas à volta deste caso passarão para o segredo de um inquérito na inspeção-geral.

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