Explicar como consumir droga? São estratégias para o mundo real

Panfleto do município de Saragoça explica como snifar cocaína. João Goulão admite que palavras têm de ser muito bem escolhidas, mas defende políticas de redução de danos

"Para fazer um rolo que não cause danos nos epitélios nasais é preferível usar papel ou cartão enrolado a tubos de materiais duros." Esta é uma das indicações que surgem num panfleto, distribuído pelo município do centro histórico de Saragoça, sobre drogas. Esta passagem ou outra que sugere que é melhor "deixar o consumo de canábis para as ocasiões especiais", ou ainda uma outra que lembra que as grávidas, lactantes ou doentes cardíacos não devem consumir drogas, levaram o Partido Popular (na oposição) a acusar as autoridades de estarem a incentivar o consumo.

Até que ponto os conselhos para reduzir os riscos no consumo de droga são incentivo ao mesmo? O que devem as autoridades fazer? Apenas campanhas de prevenção contra o consumo de substâncias ilícitas? João Goulão, presidente do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), é favorável a que as autoridades deem conselhos de redução de risco. "Genericamente concordo com as estratégias de redução de danos. Sou favorável que tenhamos estratégias adequadas à realidade e não ao mundo ideal."

Sem ter visto os panfletos espanhóis, o responsável pela estratégia de redução do consumo de drogas em Portugal acrescenta, no entanto, que estas estratégias têm de se adequar ao contexto. "Num contexto recreativo, uma discoteca ou um festival, onde sabemos que, apesar de proibido, vai haver consumo, deve haver sempre mensagens de "o ideal é que não consumas, mas se o fizeres tem estes cuidados", e isso parece legítimo."

Em Portugal, continua, "temos equipas que usam materiais desse tipo, mas privilegiamos os contactos cara a cara e, por exemplo, nos festivais essa abordagem de alerta para os riscos é feita por jovens, pela identificação que se cria entre os pares". João Goulão usa um outro exemplo para demonstrar a utilidade de campanhas viradas para a contenção de danos e não apenas para a prevenção do consumo: o álcool durante a gravidez. "Começámos por não saber cientificamente se era aconselhável ou não. Então o apelo era, "se está grávida, beba moderadamente". Hoje essa mensagem já é mais clara. "Se está grávida, não beba"."

O presidente do SICAD reconhece que há vários cenários e contextos e as mensagens têm, por isso, de se adequar. "Hoje, todos identificamos a campanha de troca de seringas como um sucesso. No início essa medida foi contestada por poder representar um incentivo ao consumo, e não era nada disso, era evitar a partilha de materiais que pudessem estar contaminados e assim evitar doenças", recorda.

Mais recentemente, numa viagem a Amesterdão, o especialista viu um outro alerta deste tipo. "Eram cartazes eletrónicos na rua, do município, que diziam "atenção: cocaína muito perigosa em circulação". Aquela mensagem pode salvar vidas", garante.

Reconhecendo que a fronteira é ténue, salienta que "temos de ter muito cuidado com a linguagem usada". Porém, numa situação de risco iminente, não tem dúvidas de que o papel das autoridades é tentar salvar vidas, ainda que isso signifique ensinar a consumir drogas de forma mais segura.

"Às vezes é preciso pragmatismo e ver a sociedade real e não a ideal. Sabendo que há consumo, vamos contribuir para que, nestas condições, eles decresçam, mas também para que quem consome corra o menor risco possível."

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Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.