Europeias. A única grande incógnita é a escolha do PS

O CDS-PP anunciou Nuno Melo como cabeça de lista mas isso não acelerou os calendários dos outros partidos parlamentares. As opções estão no essencial feitas - exceto no PS.

Se quiser ser, será. Carlos César tem a faca e o queijo na mão para decidir o seu próprio futuro político. Se quiser ser o cabeça de lista do PS nas próximas eleições europeias, será.

Carlos César transporta consigo o peso de ser o número dois político de António Costa no PS, como presidente do partido e líder parlamentar. Até agora tem dito a quem o quer ouvir que está "muito bem" na Assembleia da República, não ambicionando portanto rumar a Bruxelas. Mas verdadeiramente não fecha a porta. A condicionar esta escolha poderá estar outra ambição que se lhe atribui: a de ser na próxima legislatura presidente da Assembleia da República. Sendo eurodeputado, perderia influência política dentro do PS (a distância mata); sendo presidente da AR, não.

Os calendários das europeias e das legislativas (ambas as eleições no próximo ano, respetivamente em maio e outubro) determinam que não é possível querer ser as duas coisas em tempos diferentes. Aliás, há mais: já começaram conversas, aparentemente dinamizadas pelo Presidente da República, no sentido de antecipar em 2019 as eleições legislativas para maio, fazendo-as coincidir com as europeias. Só um largo consenso partidário - ou mesmo unanimidade - permitirá este rearranjo de calendários. Ele implicaria dissolução do Parlamento pelo Presidente da República e a marcação de eleições legislativas antecipadas. Pela parte do PS, poderia surgir um argumentário a favor, dizendo que assim o Governo que sair dessas eleições terá mais tempo para preparar o Orçamento do Estado para 2020 (que pelos calendários legais terá de entrar na Assembleia da República até 15 de outubro do próximo ano).

O segundo nome mais referido no PS como hipótese de cabeça de lista do partido para as eleições europeias é o de Ana Catarina Mendes. Se César é no PS um número dois político de Costa, Ana Catarina Mendes é, como secretária-geral adjunta - cargo que antes dela nunca tinha existido -, a verdadeira "dona" operacional do partido. Em duas palavras: controla o aparelho. Passa grande parte do seu tempo no terreno a contactar com as estruturas; e deve-lhe ser creditado, pelo menos em parte, o facto de em 2013 o PS ter vencido as eleições autárquicas com o seu melhor resultado de sempre (150 presidentes de câmara eleitos, num total de 308). Ana Catarina Mendes também tem dito que não está na corrida - mas nesta altura, a mais de um ano das eleições, ninguém verdadeiramente poderia assumir o contrário. Rumar ao Parlamento Europeu implicaria ter de deixar o cargo de secretária-geral adjunta do PS. E, nessa medida, significaria também uma importante perda de poder interno.

O PS é, no quadro dos partidos com assento na Assembleia da República, a única verdadeira grande incógnita quanto à escolha do cabeça de lista. Especulam-se nomes mas não há nenhuma certeza. O que parece garantido é que António Costa não tem pressa. A escolha só deverá ser anunciada no princípio de 2019, numa convenção europeia do PS. Ou seja: não deverá fazer parte da agenda do próximo congresso nacional do partido (de 25 a 27 de maio, na Batalha).

E Francisco Assis?

Costa terá até lá de decidir o que fazer com Francisco Assis, o cabeça de lista cuja vitória "poucochinha" nas Europeias de 2014 o levou a pôr em causa - com sucesso - a liderança de António José Seguro.

Depois disso, Assis criticou duramente a "aliança" que o PS fez com os partidos à sua esquerda e que permitiram a António Costa ser primeiro-ministro mesmo não tendo vencido as legislativas de 2015. Mas recentemente acrescentou que, quanto às questões europeias, nada verdadeiramente o separa do primeiro-ministro, pelo que está disponível para ser recandidato.

Até agora, o único partido a revelar o seu cabeça de lista foi o CDS-PP. A escolha de Nuno Melo foi anunciada por Assunção Cristas no congresso do partido, há três semanas, em Lamego

A pressa do CDS não acelerou no entanto os outros partidos. Nenhum definiu calendários. Mas as escolhas, de facto, estão feitas. Paulo Rangel será, se quiser; Marisa Matias, no BE, também (embora tenha um perfil político muito mais europeísta do que o da direção do partido); e João Ferreira tem dado à CDU sucessivos bons resultados, tanto nas europeias como nas autárquicas (Lisboa). Marinho Pinto, a grande surpresa de 2014, já disse numa entrevista à Renascença que o seu prazo como político "está a chegar ao fim".

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