Europa, África e lazer no último dia "à civil" de Marcelo

Presidente eleito almoçou numa esplanada em Queluz e recebeu Juncker e Nyusi em Lisboa. Cavaco preferiu o recato do Palácio de Belém

Aníbal Cavaco Silva igual a... Aníbal Cavaco Silva, Marcelo Rebelo de Sousa fiel a... Marcelo Rebelo de Sousa. Nem na véspera da tomada de posse o Presidente cessante e o Presidente eleito contornaram os respetivos perfis e fugiram aos comportamentos que lhes são tão característicos.

Marcelo dividiu o último dia sem o peso do mais alto cargo da nação aos ombros entre a lusofonia, a Europa e o lazer. O professor não conteve o lado mais expansivo e extrovertido. De boina na cabeça, como uma e outra vez apareceu ao povo durante a campanha eleitoral, aproveitou a tarde para descontrair, apanhar sol e almoçar numa esplanada a cem metros do Palácio de Queluz, que, revelou, frequenta há muitos anos, o Grão de Café, Folha de Chá.

Com um dispositivo de segurança ainda reduzido, o homem que hoje toma posse como primeira figura do Estado quis ganhar fôlego para os cinco anos que se avizinham, apesar de, como seria inevitável, ter sido inúmeras vezes abordado pelos populares que por ali passavam. Acenou, voltou a acenar, fez parar o (pouco) trânsito e ainda tirou fotografias. Em suma, o one man show a que nos habituou na atípica corrida a Belém.

A partir do final da tarde, já em Lisboa, vestiu a pele de Chefe do Estado. Às 19.00, reuniu-se com o presidente da Comissão Europeia, que, à saída do Grémio Literário, não lhe regateou elogios. Jean-Claude Juncker observou que um Presidente "tem sempre de enfrentar desafios", mas "agora temos o homem certo no local certo". Marcelo, prosseguiu, "é um grande e velho amigo", motivo pelo qual veio a Portugal "mostrar solidariedade com o novo Presidente e com o povo português".

Ao lado de Juncker - que confirmou terem existido conversas sobre o Orçamento do Estado, numa altura em que o documento tanta tinta tem feito correr entre Lisboa e Bruxelas -, Marcelo não quebrou o silêncio. Mas também não disfarçou o sorriso. Até porque agora é chegado o tempo de passar à ação.

Pouco depois, chegava ao Grémio Literário o presidente moçambicano. Num ambiente caloroso - e Marcelo sabe tornar o protocolo menos enfadonho -, Filipe Jacinto Nyusi (e a sua vasta comitiva) sentou-se à mesa com o (a partir de hoje) seu homólogo.

No entanto, um atraso de 40 minutos na preparação do jantar fez que o passeio pelas ruas do Chiado fosse cancelado. Logo no último dia de "liberdade" para o frenético Marcelo...

Cavaco no recato de Belém

Diferente foi o último dia de Cavaco. O ainda Chefe do Estado, mais reservado, aproveitou a derradeira jornada no exercício de funções para se reunir com pessoas de que esteve rodeado ao longo destes dez anos.

Entre as últimas arrumações - e houve muito para empacotar e encaixotar, como o próprio confessava na segunda-feira aos jornalistas -, Cavaco almoçou com alguns elementos do seu staff. No fundo, com aqueles que foram as mulheres e os homens do Presidente desde 2006. E deixou tudo preparado e a secretária limpa para que quem vem a seguir ocupe o seu lugar.

Sem qualquer contacto com o "mundo exterior" - a perceção dos riscos que a rua comporta é outro dos pontos que separam o atual e o próximo inquilino de Belém e o Presidente cessante nunca cultivou uma relação de proximidade com a comunicação social -, Cavaco limitou-se a deixar uma mensagem aos portugueses na página oficial da Presidência da República na internet. "Desta feita, não uma mensagem política mas, sobretudo, uma mensagem pessoal", tratou de esclarecer à cabeça.

E partiu para o balanço dos 3653 dias como primeira figura do Estado. "Sinto o dever de transmitir um agradecimento muito especial a todos os portugueses. Aos que em mim votaram e aos que não me apoiaram. A todos, sem exceção, estou profundamente grato. De todos guardo boas recordações, por todos tenho um sentimento de profunda gratidão. Foi um privilégio poder servir os portugueses. Na chefia do Estado, como já antes à frente do governo, procurei retribuir a Portugal o muito que o meu país me deu ao longo de uma vida", escreveu.

Para o Presidente cessante, cuja carreira política atravessou mais de três décadas, o exercício do cargo foi "uma honra" - que os portugueses lhe conferiram por duas vezes -, à qual procurou corresponder "com sentido de responsabilidade e independência, trabalhando com rigor, seriedade e determinação na defesa do superior interesse nacional".

A rematar, e quase como quem sai de cena, fez votos dos "maiores sucessos" ao seu sucessor. Marcelo, citado pela edição diária do Expresso, devolveu a simpatia. De forma mais palavrosa: "Agradeço, muito reconhecido, esses votos, bem como o modo como o senhor Presidente da República providenciou para que a passagem de testemunho decorresse da melhor forma possível."

Hoje, Cavaco sai da sua residência na Travessa do Possolo com destino ao Palácio de Belém, de onde sairá com honras militares para a Assembleia da República - Marcelo, adiantava o Expresso, equacionou furar o protocolo e chegar a pé.

O Presidente cessante vai participar na primeira parte das cerimónias oficiais de tomada de posse. Daí, rumará novamente a casa, voltando a sair em direção ao Palácio Nacional da Ajuda, onde o novo Chefe do Estado o vai condecorar com o Grande Colar da Ordem da Liberdade.

O novo gabinete

No pós-presidência, e ao abrigo da lei, Cavaco vai passar a ter um gabinete no Convento do Sacramento, em Alcântara, cujas obras já estão terminadas. O espaço, que o ainda Chefe do Estado já visitou várias vezes, vai ocupar dois pisos do edifício, que foram sujeitos a obras de reabilitação com um custo que ascendeu a mais de meio milhão de euros, segundo a Secretaria-Geral da Presidência.

O Presidente cessante, de resto, já transferiu para o gabinete vários dos seus pertences e na quinta ou na sexta-feira, segundo apurou o DN, deverá passar a utilizá-lo com maior regularidade.

Exclusivos

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Os deuses das moscas

Com a idade, tendemos a olhar para o passado em jeito de balanço; mas, curiosamente, arrependemo-nos sobretudo do que não fizemos nem vamos já a tempo de fazer. Cá em casa, tentamos, mesmo assim, combater o vazio mostrando um ao outro o que foi a nossa vida antes de estarmos juntos e revisitando os lugares que nos marcaram. Já fomos, por exemplo, a Macieira de Cambra em busca de uma rapariga com quem o Manel dançara um Verão inteiro (e encontrámo-la, mas era tudo menos uma rapariga); e, mais recentemente, por causa de um casamento no Gerês, fizemos um desvio para eu ir ver o hotel das termas onde ele passava férias com os avós quando era adolescente. Ainda hoje o Manel me fala com saudade daqueles julhos pachorrentos, entre passeios ao rio Homem e jogos de cartas numa varanda larga onde as senhoras inventavam napperons e mexericos, enquanto os maridos, de barrigas fartas de tripas e francesinhas no ano inteiro, tratavam dos intestinos com as águas milagrosas de Caldelas. Nas redondezas, havia, ao que parece, uma imensidão de campos; e, por causa das vacas que ali pastavam, os hóspedes não conseguiam dar descanso aos mata-moscas, ameaçados pelas ferradelas das danadas que, não bastando zumbirem irritantemente, ainda tinham o hábito de pousar onde se sabe.