"Estamos a tornar-nos indiferentes, amorfos, acríticos"

Uma ceia com Carmona Rodrigues

Ao contrário do que é habitual nas noites de quinta-feira, o Café de São Bento está quase vazio. Nem sequer cheira ao "melhor bife de Lisboa". Vizinho da Assembleia da República, não há no radar sinal da presença de deputados, que, com frequência, usam aquelas mesas para conspirações tardias e outros exercícios lúdicos da política.

Carmona Rodrigues passou os últimos nove anos com a justiça à perna. Acusado do crime de prevaricação de titular de cargo político no negócio da permuta de terrenos do Parque Mayer com terrenos municipais da antiga Feira Popular, o antigo presidente da Câmara de Lisboa é quase um homem livre. Há uma semana, o Tribunal da Relação de Lisboa confirmou a absolvição do ex-autarca. "É um sentimento de alívio. A minha consciência esteve sempre totalmente tranquila. Foi por isso que nunca renunciei ao cargo na câmara. Mesmo nas circunstâncias mais difíceis nunca renunciei, porque tinha a consciência de que nunca tinha feito nada que envergonhasse a minha candidatura perante os lisboetas. A câmara caiu, eu saí e nem arguido estava. Houve ordens de cima para os vereadores do PSD renunciarem. Deixou de haver quórum e, pela lei, a câmara caiu."

Carmona Rodrigues já comeu. Hoje, além de professor universitário, é administrador delegado do Taguspark. Antes de nos sentarmos à conversa esteve num jantar de trabalho com a Microsoft. Picamos uma tosta mista e duas cervejas. "Senti-me usado e traído. Mas percebi que, se calhar, é coisa que faz muito parte da política de hoje. Aceita-se como normal que haja mentira, traição, que haja todos esses defeitos que reconhecemos como tal mas que, na política, se acha normais. O que parece pouco normal é que na política haja verdade, fidelidade, responsabilidade, seriedade, lealdade. Há quem diga, porventura alguém mais maquiavélico, que a política, por definição, é isso. Pois eu não sabia que era assim. Acredito que pode não ser assim. E sentir isto da forma mais dura é uma desi-lusão."

Carmona Rodrigues resiste a alongar-se muito em pormenores, não quer dizer nomes de quem o desapontou ao longo deste processo. Mas não é difícil adivinhar que entre as desilusões estão Pedro Santana Lopes, de quem foi vice-presidente na câmara, ou Luís Marques Mendes, o líder do PSD que lhe recusou apoio à candidatura mas a quem, como independente, derrotou nas autárquicas de 2005. "Paguei o preço de ser independente. Não tenho nada contra os partidos, mas nunca fui militante de nenhum. As circunstâncias da vida levaram-me para outro caminho. Se calhar, tinha mais que fazer." A mágoa maior é, porém, outra. "Sou absolvido e as pessoas não sabem de quê. Estou no mesmo saco daqueles que foram acusados de corrupção, de gestão danosa, de peculato. Não fui acusado de nada disso. Aquilo que me incomoda, a minha mágoa, é haver pessoas que me põem no mesmo saco que os outros. Lembro-me de que a primeira vez que falei com o meu advogado ele disse-me "prevaricação costuma ser aquilo de que se acusa alguém quando não se tem nada para acusar". Nunca mais me esqueci disso. O que me incomoda é haver quem pense que "eh pá, pois, o fulano andou lá e tal... Pois, são todos iguais". Eu não sou todos. Eu sou eu."

Não partilhando a visão generalizada sobre a classe política, de que são todos bandidos, Carmona admite que nesta vida conheceu "não digo muitos, mas uma meia dúzia de políticos que admiro enormemente. Pessoas que se entregam 100% à causa pública de forma totalmente honesta e séria. E fico muito contente porque foram alguns desses que me telefonaram a dar os parabéns na semana passada". Da justiça - que, com a saúde, a educação ou a segurança, partilha sempre o quadro de honra do calcanhar de Aquiles da sociedade portuguesa -, o ex-autarca também não guarda as melhores recordações. "Lembro-me de estar em casa há uns anos e ver em direto, na televisão, uma cerimónia de tomada de posse de magistrados do Ministério Público. Estava a discursar o procurador--geral da República Pinto Monteiro. E, citando de memória, a meio do discurso diz: "Os senhores magistrados dever-se-ão abster no exercício das suas funções de incutir considerações de ordem pessoal, político-partidária ou corporativa." Não fui eu que disse, foi o senhor procurador-geral da República. É como aquele fado que diz "tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado". Portanto, o que o senhor procurador estava a dizer era que tudo isto existe."

Defensor de candidaturas independentes a todas as instâncias de poder, incluindo a Assembleia da República, Carmona Rodrigues sublinha que "vivemos um sistema um bocado bizarro" em que se diz que os candidatos a presidente da República não podem ser partidários, e toda a gente percebe qual é o contexto partidário em que muitos dos candidatos se apresentam. "Uma pessoa que foi presidente de um partido é difícil que não seja candidato partidário." Se o Eça descesse à terra e escrevesse sobre a campanha presidencial que ontem acabou, Carmona não tem dúvidas de que o título seria "uma campanha muito triste". "Receio que haja, de novo, muita abstenção. Acho que a abstenção vai continuar a ser o maior partido e isso é muito preocupante. Há dois anos estive na Colômbia e lá existe uma coisa curiosa. Em qualquer eleição em que a abstenção seja maioritária repete-se a votação. E, nalguns casos, como nas legislativas, obriga-se a que mudem os líderes. A lógica é esta: a maioria da população não quis aqueles, venham outros."

Ao longo da conversa, Carmona Rodrigues pede várias vezes desculpa pelo pessimismo do discurso, "não costumo ser assim". "Olhemos para as eleições autárquicas, para as legislativas e a discussão à volta dos círculos uninominais, olhemos para a fórmula em que assenta a lei eleitoral. Passam os anos e ninguém questiona se este é o melhor processo. A lei autárquica, por exemplo, é completamente obsoleta. Há um calculismo e um corporativismo partidário puro e duro que não nos deixa sair da cepa torta. E é isso que as pessoas lá fora, na rua, não aceitam." E a insatisfação que existe pode ameaçar o regime? "Apesar de tudo, acho que não. Sigo muito a palavra do Papa, que diz que um dos grandes males das sociedades é a indiferença. Acho que estamos a tornar-nos um país indiferente, amorfo, impotente, acrítico. E isso é o pior, estamos a murchar como país. Porque estamos a envelhecer, porque estamos indiferentes, porque nos abstemos. As pessoas devem pedir explicações aos partidos que estão cá desde o 25 de Abril e perguntar-lhes o que fizeram para evitar que isto acontecesse. Mas não vejo que isto conduza a uma sublevação popular, justamente porque o estado de alma é encolher os ombros."

Um dos assuntos na ordem do dia é a requalificação da 2.ª Circular, que Carmona acredita ser ideia do vereador Manuel Salgado e não do presidente da câmara, Fernando Medina. Questiona a oportunidade do projeto, quer no plano técnico quer no político. "Julgo que a última preocupação que os lisboetas tinham era mexer na 2.ª Circular. Os lisboetas têm muitos outros motivos de preocupação. A segurança, a habitação, a reabilitação e o arrendamento, o comércio, a educação e as escolas deviam ser prioridades. Bem sei que são competências do governo central, mas Lisboa tem de se bater por estas políticas. Mas isto agora dá jeito, pôr aí uma série de obras em marcha. Estamos já num ano pré-eleitoral e há uma fórmula antiga que diz que quanto mais obras se mostrar em ano de eleições mais se dá nas vistas. Não sei se será por isso, mas não vejo um racional nessa decisão."

Quando foi ministro das Obras Públicas e dos Transportes de Durão Barroso, criou as autoridades metropolitanas para conferir visões integradas dos diversos municípios servidos pela rede de transportes públicos. Considera um erro entregar a gestão destes e de outros equipamentos às autarquias e defende que a regionalização deve voltar à agenda política, nem que seja de forma faseada. "Temos uma junta metropolitana que não vale nada porque não tem a legitimidade do voto. Devia ser eleita diretamente pelo povo. E não tenho dúvidas de que uma autoridade metropolitana devia ter competências na área dos transportes, do ambiente, das infraestruturas e dos principais equipamentos públicos, nomeadamente escolas e hospitais. Devia ser uma autoridade com esta legitimidade democrática e com este poder de planeamento e de gestão a nível metropolitano. Agora, é claro que quando se cria uma nova área de poder alguém tem de abdicar dele - que é coisa de que ninguém gosta - e neste caso seria o poder central e o local. As áreas metropolitanas têm uma importância enorme na economia, na cultura, na educação, em tudo. Portanto, acho que faz falta voltar a pôr na agenda política a questão da regionalização, começando por aquelas duas entidades que são inquestionáveis como áreas metropolitanas que são Porto e Lisboa."

Para fecho de conversa, a pergunta costumeira sobre planos para o futuro. Carmona Rodrigues tem 59 anos, faz 60 em breve. Não exclui regressar à política. "Se me desafiarem para me candidatar à presidência de uma junta de freguesia sou capaz de aceitar."

Café de São Bento

1 tosta mista

4 cervejas

Total: 20 euro

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