Esquerda unida na rua pela defesa da escola pública

Milhares desfilaram entre o Marquês e o Rossio, em apoio à medida do governo de cortar financiamento aos privados

A medida está tomada e o governo diz que não recua. E ontem a decisão de cortar o financiamento aos colégios privados recebeu nas ruas o apoio de milhares de pessoas - mais de 80 mil, segundo a Federação Nacional dos Professores. Um sinal "forte e necessário para evitar a que direita ajuste contas com a escola pública", defendeu no fim da Marcha, o secretário-geral da Fenprof, Mário Nogueira.

O desfile que percorreu as principais ruas de Lisboa (Marquês de Pombal, Avenida da Liberdade, Restauradores e Rossio) até pode ter sido, como todos referiram, uma manifestação de apoio à escola pública e não contra o ensino privado. Mas houve alvos que foram citados, apupados e assobiados pela multidão. Assunção Cristas, a líder do CDS-PP foi a mais referida, por se ter colocado ao lado dos colégios e ter dito que a escolha devia ser entre quem tem qualidade e não entre público e privado. Mas Nuno Crato, ex-ministro da Educação, e Pedro Passos Coelho também foram criticados.

Aplaudidos e presentes na manifestação foram os partidos da esquerda. Com direito a lugar na primeira fila do desfile, estiveram os deputados Porfírio Silva (PS, Joana Mortágua (BE), Miguel Tiago (PCP) e Heloísa Apolónia (Os Verdes), a presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, Helena Roseta, além dos dirigentes sindicais. Na marcha, mas entre os participantes estavam ainda Isabel Moreira (PS), Catarina Martins (BE), Jerónimo de Sousa (PCP), Fernando Rosas ou Luís Fazenda.

"Fazemos uma manifestação gira?"

Catarina Martins foi das primeiras a chegar ao Marquês de Pombal e depressa se percebeu que estava entre admiradores. Houve autógrafos, declarações de admiração pessoal e até uma pequena admiradora que a quis cumprimentar. "Olá. Como te chamas? Olha, achas que fazemos uma manifestação gira?", perguntou a líder do Bloco à pequena Diana que, envergonhada, não conseguiu responder. Aos jornalistas, Catarina Martins lembrou os cortes de professores e alunos que a escola pública teve nos últimos e sublinhou que o BE está na rua para garantir que "o dinheiro poupado com os contratos do privado não vai para tapar nenhum buraco do défice, mas vai ser usado para garantir condições às escolas públicas".

A demonstração de apoio da medida do governo de cortar turmas financiadas nos colégios com contrato de associação onde a escola pública tem condições para receber os alunos, chegou também pelos deputados do PS. Porfírio Silva, membro da comissão permanente do partido, garantiu que o governo tem dado sinais de querer defender a escola pública. "Nada mais natural do que o PS dar apoio ao governo quando se trata de mais investimento para a escola pública. Não somos contra a escola privada, mas somos contra sacrificar a escola pública para salvar outras", acrescentou.

A escola da diversidade

Em cima do palco virado para a estátua do Marquês de Pombal, Diogo Mendes, aluno da secundária Lima de Freitas, em Setúbal, descreveu o que é para ele a escola pública. "Não é um estabelecimento rasca, é um lugar onde cabem todas as cores, que nos mostra que somos todos diferentes, mas que temos todos direito às mesmas coisas. A escola pública mostrou-me que tudo é possível, se trabalharmos, se nos esforçarmos. Não me garante um emprego, nem inflaciona as minhas notas, mas diz-me que posso ser o que eu quiser".

Era o mais jovem a dirigir-se às massas, mas foi o mais aplaudido. No meio dos ouvintes estavam Sofia Ferreira e Rui Barbosa com os dois filhos. Ele tinha um cartaz: "acabou-se a mama". "Diz tudo", referiu. Veio para defender a escola que os filhos - Leonor (12 anos) e Guilherme (10 anos) frequentam e aquele que é também o local de trabalho da mulher. "Sou professora há 17 anos e nos últimos quatro só tenho contratos de substituição. Pago para trabalhar", lamentou.

Mais abaixo a meio da Avenida, o casal Viriato e Lúcia Monteiro, ambos reformados depois de uma carreira como engenheiro e dietista, caminhavam de mão dada. "As nossas filhas andaram sempre na escola pública e foi isso que viemos aqui defender. Estamos muito admirados pela quantidade de gente que veio", sublinharam.

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