Escolas estrangeiras atraem cada vez mais portugueses

 São opções caras, mas muitos pais preferem investir numa educação bilingue, que facilite a continuação dos estudos noutros países. As escolas servem ainda as várias comunidades imigrantes


Nas aulas fala-se alemão, mas nos intervalos prevalece a língua de Fernando Pessoa, mesmo se os cabelos louros são mais comuns do que nos liceus nacionais. Na Escola Alemã de Lisboa (EAL), tal como na maior parte dos colégios estrangeiros do País, os alunos portugueses já estão em maioria. O prestígio e as diferenças em relação aos métodos de ensino nacionais cativam os pais, explicam as escolas.
Na EAL, por exemplo, mais de 60% dos 1154 alunos são portugueses e no Colégio Alemão do Porto, que tem 700 estudantes, essa percentagem sobe para 85%- os restantes são sobretudo de nacionalidade alemã. Alguns frequentam a escola apenas dois ou três anos, enquanto "acompanham a missão dos pais, quer estes sejam diplomatas ou venham trabalhar para empresas como a Volkswagen ou a Siemens", explica o director da EAL ,Roland Clauss,  há dois anos em Portugal.
Na Carlucci American International School (CAIS), em Lisboa, mais de metade dos 550 alunos nasceram no País, 25% são americanos e os restantes dividem-se por mais de 30 nacionalidades. "Há filhos de americanos destacados para a embaixada, ou que trabalham na NATO, e muitas crianças com dupla-nacionalidade, mas também muitos portugueses que preferem o nosso método de ensino", diz Sarah Banerjee, directora de relações externas.
Há muitas diferenças entre o ensino dos colégios estrangeiros e dos portugueses. A maior parte das aulas (com algumas excepções, como as de Português) são dadas na respectiva língua, por professores nativos. Além disso, muitos seguem currículos e modelos de ensino do "país de origem" e são tuteladas pelos respectivos ministérios da educação.
É o que se passa nas escolas alemãs, que seguem os currículos da província da Turíngia. "O ensino alemão é muito abrangente e favorece a cultura geral. No final do 12º ano os alunos, com mais maturidade, podem escolher qualquer área", explica Roland Clauss. Além disso, "são mais abertos, aprendem a ver o mundo de diferentes pontos de vista". Na disciplina de História, por exemplo, os alunos aprendem sobretudo a da Alemanha.
Sarah Banerjee, da CAIS, considera que os pais valorizam "a filosofia americana, que dá igual importância à parte académica, ao desporto e às artes". Quando os alunos terminam o 12º ano são considerados bilingues e têm facilidade em entrar em universidades estrangeiras - aliás,  30 a 40% dos alunos da EAL optam por continuar os estudos na Alemanha.
As escolas estrangeiras não são uma opção barata: na CAIS as propinas podem chegar aos 16 mil euros por ano; na Britânica do Porto 10 mil, na EAL rondam os 5100. No Colégio Alemão  do Porto ou no Liceu Francês ficam por pouco mais de 4000 euros.  


Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.

Premium

Adriano Moreira

Entre a arrogância e o risco

Quando foi assinada a paz, pondo fim à guerra de 1914-1918, consta que um general do Estado-Maior Alemão terá dito que não se tratava de um tratado de paz mas sim de um armistício para 20 anos. Dito ou criado pelo comentarismo que rodeia sempre acontecimentos desta natureza, o facto é que 20 anos depois tivemos a guerra de 1939-1945. O infeliz Stefan Zweig, que pareceu antever a crise de que o Brasil parece decidido a ensaiar um remédio mal explicado para aquela em que se encontra, escreveu no seu diário, em 3 de setembro de 1939, que a nova guerra seria "mil vezes pior do que em 1914".