Entrevista de Marcelo ao DN. Cada cabeça, sua sentença

Afinal, o Presidente procedeu ou não a um "subtil afastamento" em relação ao governo com a sua entrevista ao DN? Três comentadores do DN dizem três coisas diferentes

Se Marcelo Rebelo de Sousa queria fugir a unanimismos, então conseguiu, com a entrevista que o DN publicou no passado fim de semana. Três comentadores do DN - António Barreto, João Taborda da Gama e Pedro Marques Lopes - comentam-na quase sem pontos de acordo entre uns e outros, para não dizer mesmo oposto. Pergunta: a entrevista do Presidente da República significou ou não, como disse Marques Mendes, um "subtil afastamento" em relação ao governo?

"Não", respondeu ao DN o comentador Pedro Marques Lopes, gestor de empresas. "Eu não consigo ver nenhum afastamento. Nem aproximação, aliás", afirma, sustentando que a principal diferença do "atual" Marcelo em relação ao Marcelo inicial será mais no tom: agora mais "sóbrio", ou seja, "menos histriónico" do que no início do mandato.

Quem parece sintonizado com esta ideia é o advogado e ex-ministro socialista António Vitorino. Na terça-feira, na SIC, Vitorino ironizou dizendo que foi "tão subtil a demarcação" do Presidente da República em relação ao governo, "que se o Dr. Marques Mendes não a tivesse referido passava despercebida".

Gestor de distâncias

Outro comentador semanal do DN, o jurista João Taborda da Gama, discorda de Pedro Marques Lopes - mas sem ir exatamente ao encontro do que disse Luís Marques Mendes na SIC (para o ex-líder do PSD, Marcelo "sabe que está no centro da vida política e que o distanciamento, às vezes, é bom conselheiro", por isso "deixou de ser o que às vezes alguns apelidavam de "porta-voz do governo"".

O que se passa, afirma Taborda da Gama, é que "o Presidente da República vai continuar a ser exímio a gerir aproximações e afastamento e as aparências disso". Marcelo - diz ainda o comentador do DN - sabe que é nessa gestão "que reside a sua força", e essas aproximações e esse afastamento surgem dentro da própria entrevista - nuns momentos o PR parece mais sintonizado com o governo, noutros menos. Seja como for, nenhuma mudança estrutural nem no conteúdo nem no tom.

Um antes e um depois

Quem está a milhas destas perspetivas é um outro comentador semanal do DN, António Barreto. O sociólogo afirma que a entrevista, por ter sido "muito palavrosa, às vezes quase torrencial", fez lembrar Marcelo nos seus tempos de comentador político.

O Presidente - disse ainda - revelou "inteligência e contundência" e a entrevista assinala, no seu entender, "um antes e um depois" na sua relação com o governo liderado por António Costa.

"Linhas vermelhas"

Para Barreto, Marcelo Rebelo de Sousa foi "pacífico, afável, cordial e agregador", mas sem "desenhar linhas vermelhas" ao governo - porque tanto no caso do incêndio de Pedrógão Grande como no do desaparecimento de material militar em Tancos "houve demasiadas falhas".

De acordo com o sociólogo, o Presidente da República "mantém o apoio ao governo", mas diz que, a partir de agora, "os problemas têm de ser resolvidos". "O que Marcelo disse é que nada disto é de borla, que o apoio não é automático."

No caso de Tancos, acrescenta, "revelou-se um caos político e militar como há muito não se via". E o Presidente desenha agora as suas "linhas vermelhas" de exigência ao governo porque percebeu que, enquanto Chefe Supremo das Forças Armadas, "corria o risco de ficar embrulhado".

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