Enfermeiro que cozinhe, limpe a casa e trate do jardim

O PCP pediu hoje explicações ao Governo sobre um anúncio do Instituto do Emprego para recrutamento de um enfermeiro que terá de cozinhar, "limpar a casa" e tratar do jardim, acusando o Executivo de "desrespeitar" e "atacar" estes profissionais.

O caso é denunciado numa pergunta enviada hoje ao Ministério da Saúde pela deputada comunista Paula Santos, que refere o anúncio divulgado pelo Instituto do Emprego e da Formação profissional (IEFP) com o n.º 587836220 em que se procura um enfermeiro para trabalhar em Londres com um doente que está em casa.

O texto desta oferta de emprego, que o PCP considera, "no mínimo", "insólita", sublinha que "os cuidados necessários de enfermagem e médicos são já assegurados através de visitas diárias que [o paciente em causa, um idoso] recebe por parte dos serviços de saúde e da segurança social".

Assim, aquilo que se pede ao enfermeiro a contratar em Portugal é que preste "apoio psicológico e na recuperação da mobilidade", sendo "uma força positiva e encorajadora", que "esteja preparado para interagir com os serviços médicos/hospitalares locais" e que esteja ainda "disponível para preparar refeições, limpar a casa e cuidados mínimos do jardim".

Para o PCP, é "inacreditável que seja o Governo a promover propostas de emprego para enfermeiros em que as funções exigidas não correspondem ao conteúdo funcional dos enfermeiros".

"Esta proposta de emprego constitui um ataque e uma desvalorização destes profissionais. Mais, significa uma inaceitável desqualificação dos enfermeiros, quando se tem concretizado um caminho de valorização das suas formações académicas e das respetivas carreiras profissionais", lê-se no mesmo texto da deputada Paula Santos, a que a Lusa teve acesso.

"Não admitimos que o IEFP, enquanto entidade da Administração Central, sob tutela direta do Governo, fomente o desrespeito pela carreira de enfermeiro e pelos seus conteúdos funcionais. Tais atitudes revelam a não dignificação destes profissionais pelo Governo", prossegue a deputada no mesmo requerimento.

Para o PCP, "este exemplo concreto enquadra-se nas opções políticas" do Governo em matéria laboral: "Retirar direitos aos trabalhadores, aumentar a exploração e a precariedade e desvalorizar os trabalhadores".

O PCP sublinha ainda que o anúncio não indica "remuneração líquida" do trabalho em causa e lembra que "tem sido prática" o IEFP "divulgar e promover" propostas de trabalho para licenciados com remunerações iguais ao salário mínimo "ou ligeiramente superiores".

Os comunistas querem, assim, saber como é que o Governo "justifica" que o IEFP "divulgue e promova este tipo de propostas". O PCP questiona ainda o Ministério da Saúde se "não considera que o fomento desta proposta de emprego constitui uma desqualificação da carreira de enfermeiro".

Os comunistas perguntam também "quais os critérios de seleção e de divulgação de propostas de emprego pelo IEFP" e se, neste caso concreto, "o Governo teve a preocupação em pedir esclarecimentos" sobre as tarefas que são pedidas a um enfermeiro.

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