E se fosse possível a noite e o dia não serem inimigos?

Cidades tentam valorizar indústria da noite sem desprezar residentes. Surgem night mayors para fomentar o diálogo. E resulta?

Dia, esta é a Noite; Noite, este é o Dia. Apresentá-los, pô-los a falar e a tentar entendimentos. A ideia de um mediador de conflitos que pense os problemas da noite e apresente soluções está a surgir em várias cidades do mundo: o night mayor.

A ideia, como tantas outras mudanças de perspetiva, começou na Holanda. Paris, Zurique e Berlim seguiram o exemplo. Em março, o presidente de câmara londrino nomeou uma comissão para estudar, durante seis meses, as questões da noite, afirmando: "Não há dúvida de que a economia da noite é imensamente importante para a prosperidade e a vida da cidade, mas tem-se pensado pouco na forma de a gerir e de mitigar os problemas a ela associados." Por cá, o Porto já criou a figura, em 2015, nomeando uma "diretora da movida"; Lisboa prepara-se para o fazer.

"Não vos deixamos dormir"

Será que é desta? À beira de mais um verão, os martirizados residentes das zonas-problema de Lisboa pedem que se faça alguma coisa a sério antes que, como diz Luís Paisana, da Associação de Moradores do Bairro Alto, a guerra termine por liquidação de uma das partes: "Se acabarem os residentes acaba o conflito." O risco é real: Paisana, 59 anos, economista, que vive há 14 na chamada "parte baixa" do Bairro Alto, onde as multidões de folgazões se concentram, viu muita gente sair da zona. "Já houve até ameaças de morte, dizem que se queremos dormir vamos para Monsanto. Mas acalmaram porque perceberam que o radicalismo não leva a lado nenhum." Nem o radicalismo nem, reconhece, as atitudes mais agressivas: "Mandei água da janela para cima de um grupo que estava a fazer barulho e em vez de se irem embora ficaram ali a gritar "não vos deixamos dormir". E é óbvio que uma coisa nunca vai acontecer, que é haver horários de fecho à meia-noite. Isso era matar a noite."

Sensibilizar "sem moralismos"

O que é que pode resultar, então? Cristiana Pires, 32 anos, tem umas ideias sobre isso. Dirige o projeto Safe in Cais, a funcionar desde outubro de 2015 graças a financiamento da câmara. "O nosso foco são os frequentadores. A ideia é intervir junto deles no sentido de haver mudanças comportamentais. Mas também agimos junto dos promotores e dos comerciantes." Do projeto, que incide sobre o Cais do Sodré, faz parte a certificação de estabelecimentos com base numa série de exigências. "Damos formação a porteiros, empregados do bar, DJ. Como intervir em situações de crise, como dispensar álcool de forma responsável, como lidar com o consumo de substâncias psicoativas lícitas e ilícitas. E também estamos a tentar que quem trabalha na noite seja capaz de controlar certos riscos mais comunitários: ruído, lixo e urina." Por exemplo, conta, "usar os DJ para preparar as pessoas para, quando a festa acaba, saírem com a noção de que lá fora há pessoas a descansar. Não porque sejam vândalos mas porque as pessoas não se lembram. E estamos a preparar materiais para sensibilizar as pessoas de uma forma lúdica. Queremos que seja uma coisa não moralista. Em Tarragona [Espanha], por exemplo, conseguiram diminuir o ruído na rua com teatrinhos feitos por grupos de jovens a fingir que são os vizinhos que querem dormir". Outro aspeto da intervenção, conta, passa por "criar espaços de diálogo" entre as forças em presença, promovendo reuniões.

"Lisboa está no bom caminho"

E um night mayor, faz falta? "Pensar a noite como um pelouro faz todo o sentido, até porque na Câmara de Lisboa está tudo fragmentado", responde Cristiana. "É uma ótima prática e é para aí que se caminha." Aliás, gostaria de ter podido ir ao primeiro congresso de night mayors do mundo, que teve lugar em Amesterdão a 22 de abril. Mirik Milan, 35 anos, desde 2014 night mayor da cidade, concluiu que as soluções propostas pelos seus congéneres são parecidas. "Não estamos focados só nos problemas e na legislação: isso é a maneira antiga de pensar. O ponto de partida é fazer um manifesto para saber o que queremos que a cidade seja, perceber o seu ADN."

Milan não é funcionário da autarquia: "Somos uma ONG independente", explica ao DN. "Tentamos ajudar a municipalidade a criar boa legislação para a vida noturna, partindo da ideia de que ela é boa para as cidades, porque além de trazer dinheiro e permitir diversão atrai criatividade e talento. A noite não é só beber e dançar." De Lisboa, que conhece, diz ter recebido boas notícias: "Estou muito contente com o anúncio de que vai haver uma área com horários de 24 horas [a zona ribeirinha], à semelhança do que propusemos aqui para zonas não residenciais. Acho que estão a ir na direção certa." Mas os problemas das zonas centrais das cidades não desaparecem só porque há outros lugares abertos toda a noite. "Há dois meses que está a funcionar aqui uma aplicação para os residentes poderem queixar-se diretamente de distúrbios. Estão muito contentes por finalmente os levarem a sério." Outra ação que parece estar a ter bons resultados é a de "aplicar o sistema de um festival de música às zonas mais congestionadas": "Temos grupos de hospedeiros, que ajudam as pessoas, dão informação e dizem quais as regras." Quem paga? "Metade a cidade, metade os comerciantes da zona." O mesmo se passa com a ONG de Milan.

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