É incoerente o apoio do BE ao governo? "Temos memória da alternativa"

Líder parlamentar do BE afirmou que as exigências do partido ao PS "garantiram uma melhoria da vida das pessoas no concreto"

Pedro Filipe Soares explicou ontem aos parceiros das esquerdas europeias, reunidos em Lisboa, que é "a memória" a justificar o apoio do BE a um governo PS que escolhe "não ferir os ditames de Bruxelas".

"Como é que conseguimos fazer este jogo partidário tático, de enorme exigência?", perguntou o líder parlamentar do BE, respondendo de imediato: "Temos memória do que seria a alternativa a este modelo e [...] vivemos um tempo extraordinário, ditado pela consequência da relação de forças das últimas eleições" que permitiu aumentar salários ou descongelar pensões.

Dizendo haver um "ponto de vista legítimo" entre quem questiona a coerência do BE, Soares qualificou como "ilegítimo" e mero "oportunismo político" ser a direita a fazer a pergunta - "como se nos esquecêssemos do que eles fizeram quando estiveram no governo, como se agora, cada vez que nos dizem que há um problema no serviço de saúde, numa escola que ainda não foi reparada, não nos lembrássemos como eles encerraram serviços de saúde, como encerraram escolas".

"Claramente tivemos a capacidade de [...] impor um conjunto de exigências que não eram o nosso programa eleitoral, mas que nos garantiram uma melhoria da vida das pessoas no concreto e no imediato", prosseguiu Filipe Soares, na cimeira europeia "Plano B" que termina hoje, também com um discurso da líder bloquista Catarina Martins.

E é isso que, "não nos retirando o horizonte da nossa transformação da sociedade, não nos eliminando o nosso programa político nem negando a nossa identidade, nos dá agora uma capacidade negocial que tem ajudado a melhorar a vida das pessoas e a termos avanços que de outra forma não seriam possíveis", sublinhou o dirigente do Bloco.

Com vários dos intervenientes estrangeiros a defender uma lógica confrontacional contra as políticas neoliberais europeias e o atual modelo de UE, assente na austeridade e no fecho das fronteiras, Pedro Filipe Soares concluiu: "Este tipo de exemplos mostram que devemos fazer valer a nossa capacidade negocial neste contexto" de limitações impostas por Bruxelas, mas há um "horizonte de luta que nos obriga sempre a estar conscientes dos objetivos" e num tempo em que "há perigos à espreita" - desde o aprofundamento da Defesa europeia à criação de um ministro das Finanças para o espaço comunitário.

A verdade é que Catarina Martins mostrou à plateia que essa via negocial não se faz com sorrisos ao PS. Num tom duro, onde lembrou o relatório feito por especialistas do BE, PS, Governo e independentes onde se chegou a "um projeto de reestruturação, de renegociação da dívida pública junto dos credores institucionais que permitiria baixar a dívida pública para 90% do PIB", concluiu que "o Governo obriga-se - e não devia - a metas de défice que são contraproducentes para a recuperação da economia do nosso país".

Outro bloquista, Luís Fazenda, disse ao DN que os participantes nas cimeiras das esquerdas, como esta de Lisboa, "querem tirar a limpo se na Europa há realmente um Plano A de transformação". Porque "se não há, há um plano B que é confrontacional, que é de divergência aberta, que é de necessidade de termos outros tratados para uma outra Europa".

Sobre o exemplo que Portugal tem dado no espaço europeu com a atual solução governativa e os elogios aos resultados obtidos, Luís Fazenda contrapôs: "Resta saber sob que condições vamos estar dentro de poucos meses." Mais, "há o problema constante da pressão da dívida" e da sua não renegociação.

"Isso mantém-se como um jugo tremendo sobre a nossa política orçamental" e se "há coisas que têm vindo a ser feitas em sentido contrário àquilo que a troika impôs", observou Luís Fazenda, "é conhecida a diferença de opinião entre o BE e o PS acerca do cumprimento dos tratados europeus".

Esses tratados "precisam de ser profundamente alterados ou, se não são, terá de haver uma crise política que leve a uma diferente configuração europeia", frisou ainda o dirigente bloquista.

O eurodeputado espanhol Miguel Urbán mostrou-se categórico ao afirmar que "a UE não é reformável" e que, para o conseguir, é necessário "queimar o Tratado de Maastricht". Para esse dirigente do Podemos, é imperioso "acabar com a austeridade" das políticas neoliberais - que "são um verdadeiro balão de oxigénio" para os partidos de extrema-direita - e "com a Europa fortaleza" que fecha as portas aos migrantes e refugiados.

O deputado italiano Stefano Fassina, ex-vice-ministro da Economia e Finanças, argumentou que "a esquerda deve dizer não a mais integração europeia" - que outros participantes também disseram estar em vias de ser atingida à custa da solidariedade europeia e autonomia dos Estados membros. Com Lusa

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