"Diziam que o difícil era entrar, agora o difícil é para onde vamos quando sairmos"

Ana Rita Ramalho, presidente da Associação Nacional dos Estudantes de Medicina (ANEM), fala sobre os receios que os futuros médicos têm

No ano em que se estima que 700 licenciados em medicina possam ficar sem vaga para fazer a formação da especialidade, a presidente da Associação Nacional dos Estudantes de Medicina (ANEM) fala sobre os receios do futuro, o novo exame que dará acesso à especialidade, como a emigração é vista como uma alternativa por muitos quando as empresas apresentam opções ainda durante o curso na faculdade. Um dos planos da associação é criar o conceito de carreiras alternativas.

Quantos médicos indiferenciados existem?

Na primeira fornada tivemos 114, mas há muitos que desistem do curso, que optam por emigrar. Este ano são cerca de 2470 candidatos e 1700 vagas. Prevê-se que face às desistências, aos colegas que vão repetir exame ou emigrar, o número de médicos indiferenciados seja menor do que seria de esperar face a esta disparidade de quase mil estudantes. Se não fosse a emigração, certamente que o número de médicos indiferenciados já teria surgido em anos anteriores. Temos tentado providenciar vias alternativas a estes colegas.

Quais?

Este ano pretendemos criar o conceito de carreiras alternativas. Por exemplo medicina tropical, medicina espacial, jornalismo médico, carreiras de administração hospitalar, de gestão em saúde. É uma prática que já acontece em Inglaterra.

O que assusta mais os estudantes de medicina?

Não temos a possibilidade de exercer em plenitude, nem prestar os melhores cuidados após seis anos. O receio... Acho que já não é sequer não conseguir a especialidade que queremos, é ficar sem especialidade que começa a preocupar. Diziam-nos que o mais difícil era entrar e agora o que me parece mais difícil é para onde vamos quando sairmos. Vemos com bons olhos a mudança do modelo de prova de acesso ao internato médico, que tem de ser aplicado com cautela para assegurar que é um modelo melhor do que o que está em vigor.

O que pensam do novo modelo de exame?

Ficámos muito satisfeitos com o novo modelo proposto e que esteve em discussão pública. A ser aplicado como está, reflete o que os estudantes de medicina esperam de uma prova de seriação no final da formação pré graduada.

Há alguma coisa que gostariam que fosse melhorada ou retificada?

Há uma questão que foi omissa e que para nós é uma preocupação. A comissão nacional entendeu que este seria um modelo de prova nacional de avaliação para seriação e optou por não se pronunciar sobre a nota mínima. Nós, estudantes de medicina, somos contra a existência de nota mínima por várias razões. Uma delas é por vermos nas escolas médicas autoridade para avaliar os estudantes de medicina. Outra, é que neste momento temos receio que a classificação mínima seja uma forma de barrar o acesso à formação pós graduada.

Com o novo modelo, que será uma avaliação à capacidade de raciocínio clínico, não faz sentido uma nota mínima?

O que achamos que deve haver no final dos seis anos é uma seriação para acesso à especialidade e nessa perspetiva não faz sentido haver a nota mínima.

Como veem a possibilidade de um curso de medicina privado?

Não temos nada a pronunciar desde que seja assegurada a qualidade pedagógica e cientifica. Mas, neste momento, vemos com preocupação a abertura de um privado por causa da ausência de integração e de programação. Seria um sistema de definição de vagas completamente independente num contexto onde as vagas já estão esgotadas e onde não são precisas para suprir as necessidades da população portuguesa.

Há cada vez mais emigração de estudantes para fazer o internato lá fora.

Efetivamente há colegas que já não optam por estudar o Harrison e alguns face às classificações optam por emigrar e outros independentemente das classificações querem emigrar. Às vezes prende-se com questões de investigação, condições de exercício que serão mais atrativas lá fora. E o nosso ensino é reconhecido por ter muita qualidade. Não tem faltado a procura de médicos e enfermeiros portugueses.

São procurados por empresas e hospitais estrangeiros enquanto estão a fazer o curso?

Há uma séria de sessões de iniciativas que são realizadas em algumas escolas médicas que são de captação de estudantes da área da saúde. Isso já acontece durante o curso. A adesão dos colegas tem aumentado.

O que se ouve é atrativo?

Só a questão da segurança, a perspetiva de ter trabalho na área que queremos, é um atrativo bastante grande para o estudante de medicina. Quando estas empresas já vêm com respostas como possibilidades de especialidade, remuneração, condições de trabalho, que num momento em que não sabemos em que cidade ficamos ou se vamos ter especialidade e como serão as nossas condições de trabalho, quando uma empresa nos diz isto numa fase muito precoce é esta segurança que acaba por se tornar mais atrativa.

Quais os planos da ANEM?

Queremos muito aproximar-nos da população e começar a contribuir para a promoção da saúde e prevenção da doença ainda como estudantes. Temos desenvolvido atividades que passam por formação em medicina reprodutiva, saúde pública, direitos humanos para que depois possam ter ações em escolas, lares de idosos e centros de saúde para criar uma rede nacional de promoção da saúde. Temos uma atividade que vai junto de populações mais carenciadas para os estudantes passarem uma semana com essas populações para dar formação. Pretendemos dar estágios clínicos em férias de voluntariado para aproximar os estudantes de um contexto clínico que às vezes é difícil durante o ano letivo. Estamos a pensar realizar um estudo sobre o burnout no estudante de medicina. Apresentámos o estudo às escolas médicas no final de abril, foi recebido com bastante entusiasmo e o início dar-se-á certamente este ano.

Qual é a vossa perceção?

É crescente, sobretudo nos últimos anos [da faculdade], muito associado à conjuntura de incerteza. Criámos uma ferramenta que está disponível no nosso site para ajudar o estudante a avaliar a pré disposição que o mesmo tem e depois em articulação com as escolas permitir que seja seguido.

Quantas horas estuda um estudante de medicina?

No 6.º ano, a perceção que tenho, entre junho e novembro 12 a 14 horas diárias.

Há situações de esgotamento?

As escolas médicas estão mais alertadas e têm centros de apoio ao estudante que evitam que cheguemos a esses casos e que sejam diagnosticados precocemente.

O que é para vocês o futuro?

Incerto. A única coisa certa são os seis anos do curso. Se antigamente sabíamos bem o que fazer a seguir, que íamos tirar uma especialidade, hoje alguns colegas nem sabem se a vão ter. É muito complicado definir o futuro com a realidade atual.

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