Direita quer travar entrada da Santa Casa no Montepio

PSD e CDS anunciam iniciativas parlamentares para vetar negócio. Esquerda responde com críticas de "oportunismo"

PSD e CDS prometem usar todos os mecanismos parlamentares para travar a entrada da Santa Casa no capital do Montepio. Para já, o PSD quer que seja o próprio governo a impedir a operação, enquanto o CDS vai avançar com um pedido de explicações ao executivo. Caso nenhum a das iniciativas vingue, os dois partidos prometem passar a outro patamar - o PSD não fecha a porta a um inquérito parlamentar, o CDS admite avançar com uma iniciativa legislativa.

No projeto de resolução ontem entregue na Assembleia da República, o PSD recomenda ao governo que "proíba a concretização da entrada da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa [SCML] no capital social da Caixa Económica Montepio Geral". "O governo pode e deve pronunciar-se e emitir orientações sobre negócio de tanta relevância financeira e patrimonial para a SCML e, também, de tão significativo risco, fora dos seus fins estatutários", defendem os sociais-democratas. Argumentos repetidos pelo presidente do partido, Rui Rio, que ontem defendeu que a operação anunciada "não é admissível" - "Nem num governo de direita, nem de centro, nem num governo de esquerda. Mas um governo apoiado no parlamento pelas esquerdas das esquerdas é que eu não consigo perceber como é que pode estar de acordo".

Em entrevista ao DN e TSF, o provedor da SCML, Edmundo Martinho, avançou que o negócio será fechado nas próximas duas semanas e "entrará numa dimensão que está em linha com o que a própria associação mutualista decidiu na semana passada" e que passará por uma alienação até 2% do capital. Uma parcela que representa "30 a 40 milhões de euros" e na qual a Santa Casa vai participar - mas não com o valor total.

O anúncio que deixou a líder do CDS, Assunção Cristas, indignada: "A nossa reação é de estupefação, de indignação. No local próprio, que é o parlamento, as perguntas são feitas e não são respondidas e, de repente, as notícias dão os factos como consumados, como se a Santa Casa atuasse por sua conta, sem ter de prestar contas ao governo ou receber indicações numa matéria tão sensível quanto esta".

Um "bluff oportunista"

As iniciativas da direita deverão, no entanto, esbarrar nas bancadas da esquerda. Ontem, o socialista João Galamba veio acusar o PSD de "alarmismo e irresponsabilidade". "A Santa Casa tem disponibilidades financeiras que investe há muitos anos: já o fez no passado em aplicações no setor financeiro, já o fez no imobiliário, já o fez nos seguros. Não há propriamente aqui nenhuma novidade, nem nenhuma linha vermelha que tenha sido ultrapassada pela primeira vez", afirmou o porta-voz socialista, apontando como exemplo a participação da Santa Casa na abertura do capital dos CTT, quando PSD e CDS estavam no governo.

Para Mariana Mortágua, do Bloco de Esquerda, a Santa Casa "não tem nenhuma vocação" para investidor financeiro. Mas se o BE é contra a operação agora anunciada, questão diferente é travá-la na Assembleia da República, como pretendem PSD e CDS: "Não se fazem leis para impedir uma opção de investimento" de uma instituição que tem autonomia. "Isso não é sério", argumenta a parlamentar do Bloco, acusando a direita de estar a protagonizar um "bluff oportunista".

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