"Devemos estar em liberdade e não assumir uma lógica de funcionalismo político"

Filipe Lobo d" Ávila não quer estar "agarrado" ao parlamento "só porque sim". Quer ser "útil".

Não gosta de ser "rotulado" como líder da oposição interna a Assunção Cristas, mas não esconde críticas à forma como a atual direção comanda o partido. A sua lista para o Conselho Nacional não chegou a 20% dos votos, mas a oposição conquistou mais lugares no Conselho Nacional que em 2016.

Porque apresentou uma lista ao Conselho Nacional, alternativa à de Assunção Cristas?

Porque sempre defendi e defendo que é útil que o CDS seja um partido plural, um partido onde haja diversidade. Não há melhor sítio para expressar essa diversidade que o parlamento interno do partido.

Que diversidade é que não está representada na lista da presidente do partido?

Para um bom funcionamento de um Conselho Nacional é bom que existam várias perspetivas. A oficial, da direção, mas também outras que possam coexistir e contribuir para que o partido tenha respostas mais fortes e mais mobilizadoras. Não acho que a existência de uma lista única ao Conselho Nacional tenha sido, nos últimos anos, positivo para CDS. Os partidos que gostam de se afirmar como partidos de primeira liga, são partidos onde existem muitas listas ao Conselho Nacional. Independentemente das votações é muito bom que tenham existido três listas. É sinal de vitalidade do partido.

Que ideias em concreto quer destacar, na lista que encabeçou, que se diferenciam a direção do partido?

Esta lista é a mesma que há dois anos apresentou uma moção ao congresso, em que apresentou ideias que defendiam muitos valores e compromissos virados, sobretudo, para as pessoas, num conjunto diversificado de temas. Esse grupo fez um caminho de dois anos durante os quais procurou contribuir para que o partido pudesse ir ajustando o seu rumo e é isso que pretendemos continuar a fazer.

Que ajustamentos?

É preciso que a direção olhe para o funcionamento interno do partido, ao nível da secretaria-geral, dos seus órgãos, para a relação com as concelhias e distritais, o partido deve ponderar e bem a escolha dos seus representantes. Toda esta organização interna tem grande relevância e deve ser olhada com atenção. Por outro lado, há a questão do posicionamento e entendemos que as propostas do CDS devem partir daquilo que é a sua identidade e não de um pragmatismo absoluto, como por vezes é afirmado por algumas pessoas. Nós cá estaremos para que isso possa acontecer.

Na sua intervenção disse que as suas críticas não eram uma "cisão" e que no CDS "não se atiram toalhas ao chão". No entanto, anunciou a sua saída do parlamento. Não há aqui alguma contradição?

Não há nenhuma contradição. Não vou sair do partido. A minha decisão de deixar o grupo parlamentar tem a ver com aspetos políticos e com o facto de, nos últimos dois anos, utilidade que ali tive ter sido muito residual. Ainda há pouco tempo um alto dirigente do partido, na Madeira, me dizia que nem se tinha apercebido que eu era deputado. Como todos sabemos os debates em que participamos têm muito a ver com a própria orgânica do parlamento e forma como os deputados são distribuídos. Sem ter nada contra, e muito pelo contrário, a direção parlamentar, que teve um relacionamento comigo absolutamente excecional, a verdade é que me senti pouco útil e nunca estive no partido, nem e nenhuma função pública, por estar. Quando estamos, acho que devemos estar sentido que estamos a ajudar.

E porque acha que isso não aconteceu?

Não sei. Não foi por falta de tentativa ao longo destes dois anos. Houve diferentes situações em que teria sido possível acontecer esse entendimento, ter havido uma participação mais forte e um entendimento com a Senhora. Presidente do partido. Mas não foi possível. Por isso esta decisão é apenas ser consequente com um caminho. Há dois anos representei uma moção com ideias (apesar de neste período ter ouvido pessoas do partido a dizer não tínhamos uma única ideia), estive no grupo parlamentar, tenho maior orgulho de ser do CDS e, por isso, esta não é uma decisão que se tome de ânimo leve pois tenho 25 anos de CDS, mas tenho que ser coerente. Devemos estar em liberdade e não assumir uma lógica de funcionalismo político. Há uma grande dependência, não só o CDS, mas em todos os partidos, relativamente a determinados cargos públicos, e acho que devemos dar sinas de que não somos todos iguais, que não devemos estar agarrados porque sim, mas porque somos úteis e nos sentimos motivados.

Vai ser o líder da oposição interna a Assunção Cristas?

Não gosto de rótulos nem de "crítico", nem de "líder da oposição". Estou no CDS há muito tempo, sempre critiquei e apoiei todos os diferentes presidentes do partido nestes 25 anos que cá estive. Pretendemos continuar a participar com a força que tivermos, seja ela qual for.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

A direita definida pela esquerda

Foi a esquerda que definiu a direita portuguesa, que lhe identificou uma linhagem, lhe desenhou uma cosmologia. Fê-lo com precisão, estabelecendo que à direita estariam os que não encaram os mais pobres como prioridade, os que descendem do lado dos exploradores, dos patrões. Já perdi a conta ao número de pessoas que, por genuína adesão ao princípio ou por mero complexo social ou de classe, se diz de esquerda por estar ao lado dos mais vulneráveis. A direita, presumimos dessa asserção, está contra eles.