Costa abre ao povo a residência em S.Bento. E oferece cravos vermelhos

Para assinalar o 42º aniversário da Democracia, o primeiro-ministro vai abrir as portas do palacete de S.Bento, no dia 25 de abril

Marcelo Rebelo de Sousa convidou a população para visitar o Palácio de Belém, logo a seguir a ter tomado posse. Agora é António Costa que volta a abrir as portas da "sua" casa ao "povo" no dia 25 de abril, tradição que era seguida por anteriores chefes de governo. Pedro Passos Coelho fê-lo em 2015, ano de eleições, depois de em 2013 e 2014, os anos do ajustamento, ter mantido fechados os portões de São Bento. "Povo" porque é ele quem mais ordena na data da revolução e é a quem o primeiro-ministro quer mostrar o histórico edifício, onde tem o seu gabinete e onde são pensadas as políticas para o país.

Costa promete passar por lá durante a tarde, garantiu ao DN fonte oficial do seu gabinete. Mesmo se não encontrar o primeiro-ministro, quem decidir corresponder ao desafio pode contar com um cravo vermelho - oferecidos à saída - momentos musicais executados pela Orquestra Jovem Municipal Geração de Lisboa, pela Lisbon Poetry Orchestra e pelo guitarrista Pedro Joia.
Numa das salas da residência oficial será projetado um documentário da Associação 25 de abril, alusivo à data que se comemora. Podem também ser escutadas algumas das vozes da rádio emitidas a 25 de abril de 1974. Tudo isto terá como palco toda a área do rés do chão da residência oficial, a única zona disponibilizada para as visitas do público. Um corredor onde estão pendurados os retratos de todos os ex-chefes de governo, uma sala de jantar e uma outra divisão que serve habitualmente de cenário para as comunicações ao país, são os espaços que podes ser espreitados.

"Ficarão surpreendidos com a pequenez do lugar", avisa o historiador António Costa Pinto, que foi o comissário das comemorações dos 30 anos do 24 de abril, no governo de Durão Barrosos ("Abril é rEvolução!" ). Costa Pinto considera que, tal como já se fez no palácio de Belém, é uma "iniciativa de valorização" dos espaços das elites políticas. "Pretendem-se duas coisas. Uma é a celebração da data propriamente dita, com um simbólico abrir de portas à sociedade. Outra é transmitir uma maior concertação de de segurança e tolerância em Portugal".

O politólogo José Adelino Maltez vê com "normalidade" esta iniciativa. "Os palácios são do povo e de vez enquanto o povo gosta de visitar as suas propriedades. É como se fossem visitar a sua casa. Dá esse sentido de posse pública". Se a ideia é aproximar os cidadãos da política, Adelino Maltez acha que "é pouco para travar o crescendo de não cidadania". Mas não deixa de ser "marketing e, neste caso até é bom".

O politólogo acredita que António Costa será até "um bom anfitrião, porque tem jeito natural". Os nossos "atores políticos principais não são assim tão mais. São até melhores que os partidos". O problema, lamenta, é que por positivas que possam ser este género de eventos "infelizmente não chegam, por si só, para travar a distância cada vez maior entre os cidadãos e a política".

Do ponto de vista do interesse patrimonial, o palácio de S. Bento - onde chegaram a viver António Oliveira Salazar (1938 e 1970), Vasco Gonçalves (1974), Pinheiro de Azevedo (1975 a 1976), Carlos Mota Pinto, Cavaco Silva (1985 a 1995) e Santana Lopes (2004 a 2005) - "é bastante modesto", assinala a historiadora de arte Raquel Henriques da Silva. "Mas a ideia é excelente. Os jardins são lindíssimos e as pessoas vão perceber como se ligam à Assembleia da República. Esta residência, apesar de discreta, tem muita história, logo à partida porque foi ali que viveu Salazar", sublinha. A historiadora não duvida do "sucesso" que as visitas vão ter.

"Há um certo voyeurismo das pessoas em saber onde vivem os seus líderes. Quem trabalha no património sabe que esse voyeurismo justifica que os palácios e os castelos sejam os mais visitados. Produz uma enorme aproximação das pessoas aos governantes". Raquel Henriques da Silva aposta nas capacidades de "muitíssimo bom comunicador" de Costa, que "com o seu ar bonacheirão" será um bom anfitrião. "Políticos como ele e o Marcelo Rebelo de Sousa, apesar de diferentes, têm em comum o facto de ter uma atitude semelhante. É um projeto de vida no qual se empenham com gosto. Não têm ar de frete no cargo", assevera.

A Diretora-Geral do Património, a arquiteta Paula Silva, também elogia e considera "muito interessante" a decisão de Costa. "Do ponto de vista patrimonial é disto que precisamos para ganhar os cidadãos para o nosso património. Atrair as pessoas pela novidade, como as visitas aos museus à noite", assinala. E o que desperta mais curiosidade neste género de visitas? "Deve ser engraçado ver como um edifício deste género é utilizado como residência oficial. O facto de ter sido onde viveu António de Oliveira Salazar é motivo de interesse", diz Paula Silva.
Este Palacete foi mandado construir em 1877 por Joaquim Cayres.

(A data da construção do Palacete não foi 1977, como, por lapso, foi escrito, mas 1877 . Corrigido às 16:35)

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.