Despesas com medicamentos para o cancro disparam em 2015

Registo nacional revela aumento de casos e maior sobrevivência. Cancro do cólon tem tendência para ultrapassar o do pulmão.

As despesas com medicamentos na área da cancro dispararam no último ano. Só no primeiro semestre de 2015 foram gastos mais 18 milhões de euros do que no ano anterior, calculando-se que os gastos subam 12% no período anual. Nuno Miranda, o diretor do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas, explica que "há mais doentes a ser tratados e acesso a medicamentos inovadores mais dispendiosos".

O consumo hospitalar de embalagens sempre manteve uma tendência de crescimento, mas Nuno Miranda diz que, "em 2015, foi visível um primeiro grande aumento da despesa. No primeiro semestre, passámos de 187 para 205 milhões de euros, mais 9,8% do que no primeiro semestre de 2014, mas até ao final do ano essa subida será de cerca de 12%", calcula o médico.

O próprio Infarmed - Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde refere que até outubro houve uma subida de 12% nas despesas com antineoplásicos, para 196 milhões, um valor mais reduzido "por não incluir a totalidade das áreas".

A área da imuno-oncologia "não é que tem mais impacto no momento. Falamos de anticorpos monoclonais e pequenas moléculas muito dispendiosas, transversais a quase todas as doenças oncológicas e mesmo nas diversas fases de tratamento". Depois de anos em que a despesa esteve controlada, de 2011 a 2013, registou-se uma ligeira subida dos gastos em 2014, agora com um maior peso.

"Vamos ter cada vez mais doentes e pode ser difícil de comportar esta despesa. Temos de pensar bem no que temos disponível, em tratar o que afeta mais pessoas, é mais incapacitante ou causa mais sofrimento. A pressão é grande e temo que possam ser incomportáveis para toda a gente se não forem controlados, o que está a acontecer."

Esta é, aliás, uma das áreas prioritárias para o Sistema Nacional de Avaliação de Tecnologias da Saúde, do Infarmed. "Esta área, devido à enorme inovação, nomeadamente a nível da imuno-oncologia, está a ser avaliada e os hospitais já estão a registar os dados e os resultados dos tratamentos dos doentes. Apesar de tudo, destacamo-nos por não termos problemas de acesso aos principais fármacos, mesmo em relação a outros países."

1021 casos até aos 30 anos

Os últimos dados sobre a incidência do cancro em Portugal - que vão hoje ser revelados - mostram que a doença continua a aumentar, embora a mortalidade tenda a estabilizar. O registo oncológico nacional, cujos últimos dados são relativos a 2009, contabiliza 44 605 casos de doença, que representam uma taxa de 320 por cem mil habitantes, acima dos 311 de 2007. E mostram ainda algumas discrepâncias, nomeadamente entre o continente e os Açores, que também têm registo próprio (ao lado). Apesar de haver assimetrias regionais, seja em termos de rastreio e de tratamento, Nuno Miranda refere que " não há grandes diferenças de mortalidade".

O Registo Oncológico Nacional (RON), cujos últimos dados são de 2009, mostra que até aos 30 anos houve 1021 casos de cancro registados, valor que sobe para 1741 até aos 34 anos e para 2812 até aos 39 anos. Ana Miranda, diretora do ROR-Sul, refere que não se está a verificar um aumento do número de casos nestas idades. "O cancro continua a ser associado ao envelhecimento celular, antes dos 40 é mais devido a alterações genéticas e não tanto a causas ambientais."

Até aos quatro anos, predominam as leucemias e os tumores cerebrais, que vão aumentando a partir daí. O mesmo se passa com a tiroide, a pele e a doença de Hodgkin. Em termos de mortalidade, o tumor do pulmão é o mais fatal entre os 30 e os 40 anos e só a partir dos 75 anos o cancro da próstata ultrapassa este em termos de mortalidade. "É sobretudo um problema dos homens, embora tenha tendência para estabilizar."

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