Democracia está de "boa saúde" mas há "males" a prevenir

Uma sala de filósofos da política ao mais alto nível e o prémio Nobel da Literatura, Mário Vargas Llosa, prescreveram algumas "receitas" para fortalecer o ainda "melhor sistema do mundo"

Sentado em pose descontraída, sorriso aberto e o seu denso cabelo prateado impecavelmente penteado, Mário Vargas Llosa conversou um pouco com os jornalistas, momentos antes da sua conferência que iria encerrar, com chave de ouro, o dia. E o dia foi Democracia. "Que Democracia?", mais precisamente, o desafio lançado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e para o qual convidou alguns dos mais conceituados académicos da ciência política do mundo.

Sereno, o escritor e prémio Nobel da Literatura, respondeu a todas as perguntas, incluindo sobre a eleição de António Guterres para secretário-geral da ONU. "Desejo-lhe os maiores êxitos. Fez um excelente trabalho no Alto Comissariado para os Refugiados. Tem credenciais magníficas. Foi uma excelente eleição", salientou ao DN. Sobre a política portuguesa preferiu não fazer grandes comentários porque "não conhece a fundo", mas, quando questionado sobre a aliança do PS com partidos da extrema esquerda, disse que "não é assim tão estranho". "Ás vezes a água mistura-se com o azeite e funciona", sublinhou.

No dia de conferências e debates ficou claro que ainda ninguém, pelo menos entre os conceituados cientistas convidados, descobriu um sistema político melhor que a democracia. Na intervenção de encerramento, Vargas Llosa recordou alguns que falharam redondamente "como o nazismo, o fascismo e o comunismo". Este último, frisou, "uma utopia que prometia a perfeição" que "nunca foi, nem será atingida! Llosa garantiu que "a democracia está de boa saúde e que, apesar de não ser perfeita, cria a coexistência na diversidade, o que os outros regimes não conseguiram e foi o seu pecado capital". Identificou nos sistemas democráticos atuais, duas "ameaças", a corrupção e o terrorismo islâmico. A corrupção, sublinha, "é uma autêntica gangrena que corrói a democracia" e deu como exemplo a vizinha Espanha em que o contágio desse crime aos grandes partidos, como o PSOE e o PP, resultou no desencanto da sociedade com a política, principalmente os jovens. "Estão de novo a voltar-se para as utopias e isso não é bom!". Fazendo uma retrospetiva da evolução dos sistemas políticos na América Latina, com os "trágicos exemplos de Venezuela e Cuba", o escritor deixa o alerta: "Hoje há democracias mais ou menos perfeitas, mais ou menos corruptas, mas a América Latina já aprendeu que as utopias não trazem o paraíso à terra, nem a igualdade para todos. Criam o inferno".

Sobre o terrorismo, deixou o aviso em relação "a certos movimentos que se estão a criar que defendem medidas antidemocráticas para melhor o combater".

Outro "mal" foram identificados por Ian Shapiro, o politólogo de Yale: a influência que os pequenos partidos podem ter nos governos, devido à necessidade de coligações para a maioria, apesar de terem uma representatividade reduzida. Shapiro defende partidos "grandes e fortes" que possam absorver várias ideias no debate interno, "sem ficarem reféns dos pequenos partidos". O investigador de ciência política é crítico do sistema eleitoral norte-americano que permite que Donald Trump esteja na posição em que está."É um exemplo de como um grupo pode tornar refém um grande partido" .

Duas politólogas, a belga Chantal Mouffe, professora em Westminster, e Jean Cohen, que leciona na Universidade de Columbia, concordaram na necessidade de prevenir os "populismos" de esquerda e direita. Como? Não ignorando os motivos das pessoas que votam neles e, como fez Hillary Clinton com Bernie Sanders, que defendeu as minorias, colocar os seus temas na agenda.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Bernardo Pires de Lima

Os europeus ao espelho

O novo equilíbrio no Congresso despertou em Trump reações acossadas, com a imprensa e a investigação ao conluio com o Kremlin como alvos prioritários. Na Europa, houve quem validasse a mesma prática. Do lado democrata, o oxigénio eleitoral obriga agora o partido a encontrar soluções à altura do desafio em 2020, evitando a demagogia da sua ala esquerda. Mais uma vez, na Europa, há quem esteja a seguir a receita com atenção.

Premium

Rogério Casanova

O fantasma na linha de produção

Tal como o desejo erótico, o medo é uma daquelas emoções universais que se fragmenta em inúmeras idiossincrasias no ponto de chegada. Além de ser contextual, depende também muito da maneira como um elemento exterior interage com o nosso repositório pessoal de fobias e atavismos. Isto, pelo menos, em teoria. Na prática (a prática, para este efeito, é definida pelo somatório de explorações ficcionais do "medo" no pequeno e no grande ecrã), a coisa mais assustadora do mundo é aparentemente uma figura feminina magra, de cabelos compridos e desgrenhados, a cambalear aos solavancos na direcção da câmara. Pode parecer redutor, mas as provas acumuladas não enganam: desde que foi popularizada pelo filme Ring em 1998, esta aparição específica marca o ponto em filmes e séries ocidentais com tamanha regularidade que já se tornou uma presença familiar, tão reconfortante como um peluche de infância. É possível que seja a exportação japonesa mais bem-sucedida desde o Toyota Corolla e o circuito integrado.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Adeus, futuro. O fim da intimidade

Pelo facto de dormir no quarto da minha irmã (quase cinco anos mais velha do que eu), tiveram de explicar-me muito cedo por que diabo não a levavam ao hospital (nem sequer ao médico) quando ela gania de tempos a tempos com dores de barriga. Efectivamente, devia ser muito miúda quando a minha mãe me ensinou, entre outras coisas, aquela palavra comprida e feia - "menstruação" - que separava uma simples miúda de uma "mulherzinha" (e nada podia ser mais assustador). Mas tão depressa ma fez ouvir com todas as sílabas como me ordenou que a calasse, porque dizia respeito a um assunto íntimo que não era suposto entrar em conversas, muito menos se fossem com rapazes. (E até me lembro de ter levado uma sapatada na semana seguinte por estar a dizer ao meu irmão para que servia uma embalagem de Modess que ele vira no armário da casa de banho.)