Assunção Cristas junta-se a Costa para pressionar demissão de Carlos Costa

CDS quer rever Constituição e mudar modelo de nomeação. É um problema que a nova liderança identifica como "prioritária"

Paulo Portas deu o mote ao sugerir que Carlos Costa deixe o Banco de Portugal (BdP) pelo próprio pé. Pedro Mota Soares somou a dimensão legal à pressão política e indicou que deve partir do CDS a solução para que seja o Presidente da República a nomear o governador. E Assunção Cristas, apurou o DN, está disponível para ocupar a linha da frente para uma revisão constitucional cirúrgica que altere o modelo de nomeação do supervisor da banca.

Fonte do núcleo duro da mulher que vai hoje ser eleita presidente centrista diz que este é um problema que a nova liderança identificou como "prioritária".

No fundo, a nova direção do CDS junta a sua força à pressão que a esquerda, e em particular o primeiro-ministro, António Costa, vinha a exercer sobre o regulador. No entanto, os interlocutores ouvidos ontem pelo DN realçam que nunca estará em causa "comprar a mesma guerra que o PS" com Carlos Costa, mas revendo todo o quadro da supervisão, que "já mostrou ter falhas".

Como, aliás, Portas realçou, intensificando a pressão sobre Carlos Costa: "É importante que cada um saiba perguntar-se se é parte do problema ou da solução."

Mas o que é que quererão ao certo os democratas-cristãos? Mota Soares deixou algumas pistas. "Deve ser o Presidente da República a nomear o governador do BdP, não o governo. É isso que pode exatamente resolver o problema e o CDS deve ter a capacidade de apresentar uma solução", recomendou o ex-ministro.

Mota Soares salientou que "deve vir do CDS a promoção da primeira reforma e, porventura uma das mais importantes: começar por reformar a Constituição".

Alguns dirigentes do partido acreditam que é possível rever o artigo 133.º da mãe das leis, aquela que estipula as competências do Chefe do Estado quanto a outros órgãos - entre as quais não há qualquer referência ao governador do BdP.

Algumas vozes centristas não descartam mesmo um modelo de designação próximo daquele que o PS propôs em março do ano passado: o governador seria proposto pelo governo, seria ouvido depois no Parlamento pelos deputados (que emitiriam um parecer sobre a nomeação) e o Presidente teria a palavra final. Essa iniciativa socialista, recorde-se, morreu à nascença às mãos de PSD e CDS por recusarem intervenções cirúrgicas na Constituição.

Os centristas sabem, porém, que o governador só sai se quiser. Porque está amparado pelos estatutos do Banco Central Europeu. Já no que respeita a uma revisão constitucional, o CDS fala sozinho à direita. O PSD - que será sempre necessário para a maioria de dois terços que essa alteração exige -, explica fonte próxima de Passos Coelho, torce o nariz a revisões "de cosmética". E, politicamente, também não quer dar o dito por não dito na defesa do supervisor.

O PS não fala sobre o assunto. Contactado pelo DN, o porta-voz socialista, João Galamba, recusou comentar a intervenção de Portas.

Mas o CDS não desarma. João Almeida escusou-se a comentar a questão da revisão constitucional, mas notou que o partido sempre foi "muito crítico sobre a atuação do BdP na resolução do Banif" e que vai dar conta disso nas conclusões da comissão de inquérito.

Outro sinal da determinação do partido sobre o assunto foi deixada por Diogo Feio. O coordenador do Gabinete de Estudos adiantou que haverá um grupo a trabalhar sobre a supervisão do sistema financeiro.

Angola no discurso de despedida

Portas deixou o Congresso logo após a sua intervenção pela manhã, num sinal claro que o palco, a partir dali, tinha de ser todo para Assunção Cristas. "Pronto. Finito", declarou no final da sua intervenção, ainda com o rosto húmido das lágrimas que não conseguira conter.

Fez um discurso de despedida com avisos às "tropas" para que se mantivessem unidas (ver texto ao lado) e aproveitou para trazer Angola à ribalta, cuja relação com Portugal tem estado debaixo de tensão, principalmente por causa de investigações criminais do Ministério Público português, que envolvem altas figuras do regime de José Eduardo dos Santos.

"Falo com a autoridade que sinto que tenho de quem trabalhou muito para as melhorias de relações entre Portugal e Angola", sublinhou. Portas apelou "a todos, principalmente aos órgãos de soberania, que evitem a tendência de judicialização nas relações entre os dois países. É um caminho sem retorno". Sobre o seu futuro, declarou: "Não me perguntem se é um até já ou um até sempre. É um até amanhã. Estarei cá para exercer o meu direito de voto." E àqueles que já antecipam uma candidatura presidencial daqui a dez anos, um alerta: "Qualquer especulação [por um prazo] superior a seis meses é, no mínimo, um atrevimento."

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