Costa ignora PSD e reitera confiança na aliança à esquerda

O primeiro-ministro acredita na "plataforma comum" para "dar resposta às necessidades do país" e valoriza a Europa

Bloquistas, comunistas e ecologistas continuam a ser os parceiros preferidos de António Costa, apesar da recente quebra de aliança na votação do orçamento retificativo. Na sua mensagem de Natal, o primeiro-ministro deixou implícita a sua crença no histórico acordo com o BE, o PCP e "Os Verdes". Não será inocente, nem inspirado no espírito da quadra festiva. Costa vai precisar destes partidos para aprovar vários dossiers em 2016 e opta por ignorar a "mão" que o PSD já lhe estendeu por duas vezes na última semana (na aprovação do retificativo e da contribuição extraordinária de solidariedade).

"Como ficou provado pelos acontecimentos recentes na nossa democracia, temos confiança que, pelo diálogo, pela transparência e pelo compromisso, atingiremos uma plataforma comum que dê resposta às necessidades do país, com vista ao relançamento da economia e à geração de emprego", salientou o chefe de governo, numa clara alusão à aliança com bloquistas, comunistas e ecologistas.

António Costa acredita que "essas são as bases para um país mais desenvolvido, uma economia mais competitiva e uma sociedade mais justa". E também que "essas são também as bases para a consolidação sustentada das finanças públicas", um objetivo que, sublinhou, "este governo prosseguirá através da trajetória de redução do défice orçamental e da dívida pública".

Apesar de ter sido graças ao PSD que o seu orçamento retificativo foi viabilizado e de, na mensagem de Natal, transmitida antes desta intervenção de Costa, Pedro Passos Coelho ter acenado a "bandeira branca" aos socialistas (ver texto ao lado), o primeiro-ministro mantém o muro que o separa da direita. Numa entrevista publicada esta sexta-feira no JN, Costa afirmara que "nos últimos anos, o PSD radicalizou-se de tal forma à direita, que tornou difícil qualquer contacto, mesmo em matérias de tradicional consenso". E, de novo, enaltece o acordo à esquerda: "orgulho-me de ter contribuído para que os portugueses tenham hoje outras soluções de governo".

Desafios para 2016

Provar que a tal "geringonça", apesar do percalço do retificativo, não só funciona, como até pode ter de voar para superar os complexos desafios de 2016, é o milagre que o incansável negociador António Costa terá de alcançar. A aprovação do orçamento geral de Estado será a nova prova de vida da aliança.

Este não fez parte das "posições conjuntas" assinadas pelo PS com os três partidos à sua esquerda, mas Costa sabe que não há outro caminho que não seja conseguir que seja aprovado pela histórica maioria de esquerda. O BE já disse que não passava "cheques em branco", mas prometeu encontrar uma "solução estável, duradoura e credível". O PCP manifestou a sua disponibilidade para "avaliar sem reservas mentais os conteúdos do próximo Orçamento", mas Jerónimo de Sousa avisou que este terá de contemplar "medidas urgentes que deixam tantos portugueses - trabalhadores, reformados, pensionistas - na expectativa".

Além do orçamento de Estado, será preciso também, até abril, entregar o plano de estabilidade a Bruxelas, e tomar decisões para resolver a questão do Novo Banco, tudo matérias no setor financeiro onde, a avaliar pelas recentes posições assumidas, bloquistas e comunistas já mostraram a sua tolerância zero para apoiar soluções que impliquem mais custos para os contribuintes.

A reversão do processo de privatização da TAP, que Costa quer que volte a ser dominada maioritariamente pelo setor público, conta com o apoio da esquerda, bem com a concessão dos transportes e estes dossiers podem servir de moeda de troca para equilibrar outros menos pacíficos, como a reestruturação da dívida ou o défice.

Defender o projeto europeu

Na sua mensagem de Natal, o primeiro-ministro reconheceu que "o caminho que temos pela frente não será fácil, enfrentamos enormes desafios e teremos muitos obstáculos a ultrapassar", mas disse estar "confiante que os vamos superar". Costa sublinhou o "tempo novo" para Portugal, "um tempo novo para as famílias e um tempo novo também para as empresas; um tempo novo de oportunidades que vão ao encontro dos projetos de vida e de felicidade de cada um dos portugueses".

E para mostrar que não tem receio dos temas fraturantes à esquerda, António Costa ainda destacou a celebração em 2016, dos 30 anos da adesão de Portugal à então CEE (Comunidade Económica Europeia), a par do 40º aniversário da Constituição da República Portuguesa e do 20º da CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa). "Estas três datas são o momento para reafirmamos compromissos fundamentais com a nossa própria identidade: a identidade democrática expressa na Constituição a identidade de um país que pretende defender o futuro do projeto europeu e o seu ideal de prosperidade; e de um país que valoriza e promove a comunidade de cidadãos que partilham a nossa língua, a nossa língua, a língua portuguesa", asseverou.

Deixou ainda palavras "especiais" para as comunidades portuguesas, para os refugiados e para militares e polícias em missão no estrangeiro.

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