Costa empenhado em relação "leal" com Marcelo e espera o mesmo do Presidente

Primeiro-ministro diz que "seria enorme perda para o país" pôr em causa esta relação. E admite que riscos foram "subestimados" no que diz respeito aos incêndios de outubro

António Costa voltou ontem a conter as suas emoções e foi habilidoso na forma como abordou a sua relação com Marcelo Rebelo de Sousa. Na primeira entrevista que deu após os incêndios de outubro, à TVI, o primeiro-ministro recusou-se a comentar a alegada tensão com o Presidente da República, ou as conversas que manteve com ele. Mas também nunca rejeitou a ideia de que a coabitação passa por uma crise.

Com os carros dos Bombeiros da Pampilhosa da Serra como cenário - um dos concelhos mais atingidos pelos incêndios, que mataram 110 pessoas - , Costa manifestou-se totalmente "empenhado em manter o nível de cooperação" com o Chefe do Estado e aproveitou para lançar um recado para Belém: "Não me passa pela cabeça que o Presidente da República também não esteja". Reforçado pela ideia de que perder a "relação franca e leal" com Marcelo Rebelo de Sousa "seria uma enorme perda para o país".

Seja como for, o primeiro-ministro quis notoriamente aliviar a pressão que existiu desde a declaração de Marcelo ao país, que redundou na demissão da ex-ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, e numa troca de palavras azedas entre o Presidente, Governo e socialistas. Na semana que passou, uma fonte governamental dava conta que o executivo tinha ficado "chocado" com a intervenção de Marcelo porque o Presidente conheceria as medidas que iriam ser tomadas e que demissão da ministra da Administração Interna já estava acertada. "Chocado ficou o país", respondeu Marcelo.

O DN sabe que em Belém aguardava-se com bastante expectativa as palavras do primeiro-ministro porque representariam ou não o tempo e o modo de terminar com o clima de fricção institucional, público e notório.

António Costa recusou várias vezes comentar a intervenção do Presidente. "O primeiro-ministro não faz análise política", disse, insistindo que não revela nem revelará as conversas entre os dois. "Não são para tornar públicas, nem agora, nem em futuro livro", ironizou, referindo-se ao último volume da autobiografia de Cavaco Silva, no qual o ex-presidente revelou conversas tidas com o antigo primeiro-ministro José Sócrates.

Hoje quando se sentarem à mesma mesa do Conselho de Estado (ver texto ao lado), o Presidente da República sabe que o primeiro-ministro não quer mais alimentar um braço de ferro. Para Costa, o tempo agora é de seguir em frente: "Temos o governo reconstituído e reconfirmado nas suas funções para pormos mãos à obra." O primeiro-ministro referiu-se assim à remodelação e ao chumbo da moção de censura que, segundo Marcelo, reforçaria a legitimidade do Governo.

O primeiro-ministro reconheceu que foram mal avaliados os riscos de grandes incêndios. "É manifesto hoje que houve uma subestimação dos riscos na primeira quinzena de outubro", admitiu António Costa, recordando que esses riscos "se mantêm neste momento" com o calor que se continua a fazer sentir. "Houve seguramente carência de meios", apontou.

Para o primeiro-ministro, também se tem hoje a "noção da excecionalidade do que aconteceu na noite de 15 para 16 de outubro". "Houve uma subestimação do impacto do furacão Ophelia", no continente, assumiu. António Costa referiu-se ainda a conversas que tem mantido com autarcas para apontar que, perante "fenómenos absolutamente devastadores", "todos os meios que existissem seriam insuficientes".

Nesta entrevista, Costa conteve de novo as suas emoções. Questionado sobre o que mais o tinha impressionado nas suas visitas pelos concelhos mais afetados, respondeu: "Aquilo que é absolutamente prioritário é o esforço de reconstrução."

Conselho de Estado: primeiro encontro após a crise

O Presidente da República e o primeiro-ministro vão sentar-se pela primeira vez à mesma mesa depois do clima de tensão dos últimos dias. Mas na reunião de hoje do Conselho de Estado haverá muito pouca margem para Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa ou até os conselheiros nacionais dizerem o que lhes vai na alma sobre a relação Belém/São Bento.

Isto porque haverá um convidado especial a participar na reunião do órgão de consulta do chefe do Estado, o presidente da Comissão Europeia. O modelo da reunião, segundo o DN apurou, é precisamente o mesmo que foi adotado quando Mário Draghi, presidente do Banco Central Europeu, em 2016, trocou impressões com os conselheiros nacionais em São Bento. Ou seja, haverá uma intervenção inicial de Jean Claude Juncker - que também deve falar aos jornalistas à chegada ao Palácio de Belém - e depois Marcelo e os 19 membros do Conselho poderão colocar-se questões sobretudo sobre a política europeia. Sendo que Juncker também deverá abordar a tragédia dos incêndios em Portugal, até porque deu uma recente entrevista à Lusa em que considerou fundamental melhorar a resposta coletiva europeia às catástrofes. "Após os trágicos incêndios florestais em Portugal, as coisas não podem continuar como estavam", afirmou.

Mendes: governo dá tiro no pé

Marques Mendes é um dos conselheiros que hoje irá ouvir e questionar o presidente da Comissão Europeia. Ontem, no seu habitual comentário na SIC, dizia que o Governo teve "falta de inteligência" e deu um tiro no pé ao tentar entrar em guerra política com o Presidente da República.

Para o antigo líder do PSD, se António Costa quer ganhar eleições a até tentar uma maioria absoluta, precisa de entrar no eleitorado moderado, que é por natureza o eleitorado de Marcelo Rebelo de Sousa. "Marcelo funciona, pois, como uma espécie de "fiador" ou de "avalista" de Costa junto do eleitorado moderado. Se esta relação se quebrar, António Costa fica demasiado encostado à esquerda e perde eleitoralmente". Mendes acredita, no entanto, haverá um regresso à normalidade nas relações Belém/São Bento.

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