Contexto de "profunda exclusão" foi terreno fértil para "hipermercado de droga"

A "profunda exclusão" em que vivia o Casal Ventoso criou um terreno fértil para que, a partir do final dos anos 1980, o bairro lisboeta se transformasse no "hipermercado de droga" da capital, segundo o sociólogo Miguel Chaves.

O investigador do CESNOVA -- Centro de Estudos de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL) explicou à agência Lusa que o cenário que começou a ser destruído há mais de 15 anos, com a reconversão social e urbanística do bairro, teve origem em "processos profundos de exclusão social", que começaram no início do século XX.

O autor do estudo "Casal Ventoso: da Gandaia ao Narcotráfico. Marginalidade Económica e Dominação Simbólica em Lisboa" (produto da sua tese de mestrado) afirmou que o Casal Ventoso foi, "desde os seus primórdios, um bairro que sofria processos profundos de exclusão social". Essa exclusão, resumiu, podia ser entendida a quatro níveis: residencial, exclusão do sistema produtivo, exclusão escolar, e estigma social.

Este era "um bairro de indivíduos que viviam na periferia, nos limites mínimos das condições de habitação". É "um dos primeiros exemplos de habitação clandestina em Lisboa".

Para além disso, acrescentou, quem ali vivia sofria uma "grande exclusão em relação ao sistema produtivo". A população era "'subproletariada'", a mão-de-obra masculina era "particularmente desqualificada", e, por isso, "a primeira a ser expulsa das fábricas" em momentos de crise.

Uma grande parte da população feminina e das crianças andava à gandaia, "aproveitando as lixeiras existentes no bairro".

A isto acrescia o facto de, no Casal Ventoso, os níveis de instrução atingirem patamares muito baixos: "Eram raros os indivíduos que concluíam o primeiro ciclo do ensino básico e essa situação de baixíssima escolarização prolongou-se até muito tarde".

Quem vivia no bairro tinha ainda de confrontar-se, "desde muito cedo na sua vida, com um estigma social profundo". Ser do Casal Ventoso implicava "carregar um estigma que era projetado sobre um território" e isso "tornava-lhes a vida muito complicada: para arranjar trabalho, na própria escola, na relação com professores, etc., mas também na relação quotidiana que estabeleciam com pessoas que não eram habitantes do bairro".

Cria-se, assim, acrescentou Miguel Chaves, "um caldo de profunda exclusão social, muito propício ao desenvolvimento de atividades ilegais", e que, a partir da década de 1980, viu surgir "uma estrutura de oportunidades ilegais extensa, organizada, sobre a qual se veio a desenvolver o narcotráfico".

A partir desse momento -- "criada uma estrutura de oportunidades ilegais, dada a procura muito intensa de drogas, sobretudo de heroína, que se verificava em Lisboa nessa altura, e atendendo às baixíssimas condições materiais de existência dos residentes" -- um número crescente de indivíduos engrossou as fileiras do narcotráfico. Daqui ao "hipermercado de droga" foi menos de nada.

Portugal assinalava, há 15 anos, o princípio do fim do Casal Ventoso. Concluía-se a primeira fase de um amplo e ambicioso processo de realojamento de mais de mil famílias, integrado num pioneiro plano de reconversão sócio urbanística.

Em fevereiro de 1999, a Câmara de Lisboa, então presidida pelo socialista João Soares, dava por concluído o processo de realojamento de 248 famílias no bairro da Quinta do Cabrinha.

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