Conferência "Que Democracia". Populismos até podem ser bons

Desdramatizar a questão dos movimentos extremistas e tentar compreender os seus apoiantes é o conselho de duas conceituadas politólogas

Chantal Mouffe, professora em Teoria Política na Universidade de Westminster, e Jean Cohen, catedrática da mesma matéria na Universidade de Columbia, dizem que as democracias não podem ter "demos", ou demónios, entre eles o dos designados movimentos ou partidos populistas. "Democracia sem demos" era o tema do painel em que participaram, moderado por Miguel Nogueira de Brito.

Para a belga Chantal Mouffe, a política não deve ser feita de "antagonimos esquerda/direita", nem de "fronteiras" que excluem movimentos com origem na pluralidade da sociedade civil, como os designados "movimentos ou partidos populistas". Defende, em oposição ao "antagonismo", um sistema de "agonismo" entre o "nós e o eles" em que "nós e eles não são inimigos mas sim adversários e, apesar das diferenças ideológicas e dos conflitos inevitáveis, são capazes de aceitar a legitimidade do outro".

Esta cientista política acredita que "para ultrapassar a crise de representatividade que sofrem as nossas democracias, os grandes partidos democráticos sociais não devem ignorar as extremas esquerdas e as extremas direitas. "Não se pode rotulá-las de populistas para as desqualificar. Não podem ignorá-las em sociedades tão oligarquizadas como as que existem hoje no ocidente, onde a clivagem entre ricos e pobres é cada vez maior. Os partidos extremistas de esquerda, por exemplo, dão resposta e são a voz de toda uma classe média atingida pelo desemprego e pela precarização, principalmente dos jovens. É preciso procurar entender porque tantas pessoas votam neles".

Jean Cohen, que lamentou que atualmente exista uma "elite política de neoliberais que já nem acha que tem de prestar contas ao eleitorado", discorda da teoria do "agonismo" de Chantal e, quanto aos
"consensos, ainda pior".Também não acredita que o "populismo esquerda/direita" seja a resposta para a crise da representatividade dos partidos. "Não é possível comparar populismo com política", frisou. "No populismo não há relação de amigo/inimigo. O populismo é representado por um grupo de pessoas que quando chega ao poder defende que representam o todo e assim perdem a legitimidade. Se acharmos que somos a voz do povo isso é o fim da democracia".

Ao contrário de Chantall, Jean Cohen não viu Bernie Sanders (o adversário democrata de Hillary Clinton) como um "populista de esquerda", mas está de acordo com a politóloga belga, quando reconhece que, populista ou não populista, Sanders "deu voz a um conjunto de temas e problemas de minorias que os grandes partidos não tratavam e conseguiu depois que Hillary os colocasse na agenda".

Cohen sublinha que "a democracia é muito mais do que eleições de partidos políticos. Há movimentos da sociedade civil que discutem novos temas e os partidos políticos têm de estar abertos a esta pluraridade. Mesmo que não concordem, não devem deslegitimá-los".

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