Comunistas não querem comprometer a geringonça com o PS

Nem as nove câmaras que o PS ganhou aos comunistas fazem tremer o "essencial" da estratégia do PCP: afastar a direita

Não perder de vista o "essencial" da estratégia que o PCP definiu quando assinou a "posição conjunta" com o PS - tirar a direita do poder e repor direitos e rendimentos aos trabalhadores - e não comprometer o que a geringonça ainda pode trazer de vantagem para esse objetivo em sede de orçamento de Estado para 2018, deverá ser a linha de força hoje aprovada pelo Comité Central dos comunistas. Essa foi a estratégia proposta pela Comissão Política, o órgão mais restrito do PCP, que esteve ontem reunida na sede do partido, na Soeiro Pereira Gomes.

O tiro de partida para a esta posição foi dada logo na noite de domingo pelo secretário-geral, na sua reação aos resultados eleitorais desastrosos para o PCP, quando deixou implícito que não estava nos planos do partido comprometer a geringonça. "A nossa convicção profunda é a de que autárquicas são autárquicas. Vamos agora para a batalha política, a intervenção em sede institucional... Quem nos conhece sabe bem que nenhuma perda nos leva a perder os grandes objetivos que nos anima", afirmou Jerónimo de Sousa.

O DN apurou que para os dirigentes que integram a Comissão Política, podem ter que ser afinadas alguma táticas locais. Margarida Botelho, membro da Comissão Política e responsável da Direção da Organização Regional de Setúbal (DORS) do PCP não deixou de admitir alguns erros na margem sul, onde o partido perdeu três câmaras. Em declarações à Lusa, esta dirigente licenciada em Comunicação, disse que "não há uma explicação simples", reconhecendo que o o PCP "não fez tudo bem".

Mas mesmo que mudem algumas posições a nível local, a estratégia global é para manter. Enquanto o governo PS não recuar no compromisso assumido há dois anos, o PCP não rompe a maioria parlamentar de esquerda.

As palavras de António Costa, na noite eleitoral, salientado a derrota do PSD e omitindo a do PCP, que perdeu nove câmaras para os socialistas, entre as quais dois bastiões comunistas, como Almada e o Barreiro, não deixaram de ser apreciadas e um sinal claro que também o secretário-geral do PS estava a proteger o aliado.

Ontem, depois da reunião com o presidente da República, também o presidente do grupo parlamentar socialista, Carlos César, dissipou as dúvidas: "Houve um reforço da componente política que está associada à atual solução governativa e, neste sentido, se as eleições autárquicas têm algum feito sobre a situação política nacional, outro efeito não têm do que a consolidação da solução política que está em vigor, ou seja: fortalecimento do governo da República liderado pelo PS", salientou à saída do Palácio de Belém. Questionado pelos jornalistas sobre possíveis efeitos dos resultados das autárquicas no processo negocial do orçamento, César sustentou que "aquilo que tendencialmente é possível observar é que houve um reforço da votação nos partidos que estão associados à maioria parlamentar que apoia o Governo e houve uma diminuição na área da direita, evidentemente, cada partido com a sua intensidade".

Esta aproximação é vista por alguns setores do PCP como um possível sinal de que o PS pode também estar disponível para entendimentos em algumas autarquias onde não tem maioria, como Lisboa, ou onde os comunistas também não a têm, como Loures.

Da reunião da Comissão Política também não resultou nenhuma orientação para um aumento da pressão sindical, com mais greves e protestos. As ações já marcadas pela CGTP para este mês e novembro vão manter-se e não estão previstas alterações ou reforços.

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