"Competimos com universidades com condições incomparáveis"

O Instituto Superior Técnico (agora integrado na Universidade de Lisboa) foi a única instituição nacional no ranking das 200 melhores universidades europeias. Devia ter entrado toda a universidade, um erro que o reitor espera que não se repita

Na quinta-feira foi divulgado o ranking do Times Higher Education sobre as melhores universidades europeias. Só aparece uma portuguesa no ranking e é o Instituto Superior Técnico. Por que é que não aparece já como Universidade de Lisboa?

Gostava de dizer várias coisas sobre esse ranking. Se houvesse um ranking de rankings este ficava em último lugar. A segunda coisa é que são tão fracos que não conseguiram distinguir o Técnico da Universidade de Lisboa (UL) e quando fizeram o ranking - este é de 2015 -, não conseguiram juntar como produção científica da UL as escolas da antiga Universidade Técnica com as da antiga Clássica. É um assunto que esperamos que esteja resolvido este ano. Gostaria ainda de dizer que a posição da UL nos rankings que medem produção científica a nível europeu anda por volta da posição 30. E mais, há mais do que uma universidade portuguesa nos primeiros 100. Portanto, este ranking é muito infeliz porque não corresponde de maneira nenhuma ao desempenho das universidades portuguesas.

Isto aconteceu então por quê?

É uma questão de base de dados. Eles usavam a base de dados da Thomson, passaram a usar a da Scopus. É preciso fazer a agregação das instituições e isso no ano passado não foi feito. Deu este resultado infeliz. Não consigo perceber como é que algumas das outras universidades portuguesas, onde este problema da fusão não se coloca, não aparecem em posições mais destacadas. Não há maneira da UL e da Universidade do Porto não aparecerem nas primeiras 200 da Europa, nem nas primeiras 100.

Falaram com eles?

Falámos. Desde o ano passado, quando apareceu esta proposta de ranking e percebemos que isto estava a acontecer. Nessa altura já não fomos a tempo de fazer a correção. Este ano, temos estado a trabalhar com as pessoas da Times Higher Education e espero que em 2016 as coisas saiam bem, mas estamos para ver.

Espera que no próximo ano a posição seja melhor?

Claro. Espero que seja melhorada. Francamente a UL está preocupada com a posição nos rankings, mas está preocupada com a posição em rankings em que um investigador independente ou alguém que trabalhe de forma independente consegue reproduzir as posições. É o caso do ranking de Xangai e do da Scimago, que são os dois mais prestigiados do mundo. No primeiro, a UL está a nível mundial perto da posição 200 e no segundo está na 130 e tal. Na Scimago, a nível europeu, estamos em 20 e poucos.

Pode ser prejudicial para a projeção internacional da UL?

É preocupante. Todos os dias vemos disparates. Só apetece fazer comentários menos elogiosos relativamente às pessoas que fizeram aquele trabalho. Mas a nível internacional tem pouco impacto, porque os rankings mais prestigiados são o de Xangai e da Scimago. Há pouco tempo dizia-me um amigo que vive em Macau que os chineses escolhem as universidades olhando para o ranking de Xangai. Em muitos sítios é assim. A posição da UL nos rankings que verdadeiramente contam é muito confortável e orgulha-nos muito. Portanto, desse ponto de vista, tem um impacto limitado.

Qual pode ser a posição portuguesa a nível europeu?

Estamos a competir com universidades que, em muitos casos, têm condições para trabalhar - quer do ponto de vista financeiro, quer de capacidade instalada - que são incomparáveis. Espero que as universidades portuguesas que fazem melhor trabalho consigam aguentar as posições nos rankings, porque tivemos descida na produção científica nos últimos anos, como consequência da política de ciência e de bolsas de doutoramento. Houve muitos jovens investigadores que abandonaram o país. Espero que seja possível criar um movimento de recrutamento de alguns destes doutorados, que são dos mais brilhantes cientistas que temos. Se se conseguir inverter esta situação vamos ter melhorias nos rankings.

E vê isso com este orçamento?

A questão das contratações melhorou muito em relação ao último ano. Para dar um exemplo, a UL está há dois meses à espera de uma autorização do governo para renovar a contratação de um professor convidado. Isto é algo que não é aceitável. A situação que resulta do Orçamento do Estado de 2016 é uma situação em a nossa capacidade de recrutamento está restabelecida. A UL - tal como as outras universidades portuguesas - fez um grande ajustamento. Desde 2009 até agora, a UL passou de 6000 trabalhadores para 5000. Dos quais 500 eram professores. Nos dois últimos anos, a massa salarial desceu 8,2 milhões de euros. Agora precisamos de recuperar, porque temos um corpo docente muito envelhecido.

É urgente contratar?

Temos faculdades e departamentos em que a média de idades é acima dos 55 anos. Isto significa que daqui a 10 anos há áreas científicas onde não vai estar ninguém dos professores que cá estão e é preciso passar escola. Espero que este ano se consiga fazer alguma renovação. Algumas daquelas instituições que vemos nos primeiros lugares do ranking europeu têm um financiamento público por aluno cinco vezes maior que o nosso. O que recebemos para formar cinco alunos eles recebem para formar um. É muito difícil competir nesta base e acho que temos feito muito bem em termos de competição.

E há boas perspetivas para que a ciência volte a ser uma aposta?

As posições públicas que o ministro do Ciência, Tecnologia e Ensino Superior tem apresentado são posições na qual se revê o sistema cientifico e, em particular, eu me revejo. Mas temos uma dotação orçamental igual há do ano passado, com a nuance de que há uma pequenina descida se aprovarem o congelamento das propinas. Lembro que o primeiro-ministro, na campanha eleitoral, prometeu aumentar a dotação das instituições do ensino superior e, portanto, as instituições têm uma grande expectativa de que seja possível rapidamente negociar um plano de orçamento até ao final da legislatura que permita recuperar. Há 10 anos as universidades tinham uma dotação que era o dobro do que é hoje. Há maneiras de lidar com os cortes orçamentais, uma é não contratar professores, ter turmas maiores e menos oferta de disciplinas, a outra é deixar degradar os edifícios e isso acaba por se refletir na qualidade do ensino, da investigação e da transferência de conhecimento para a sociedade.

Na próxima semana, a UL inaugura a primeira exposição no Pavilhão de Portugal. É uma forma de valorizar o património?

O Pavilhão de Portugal é um edifício emblemático para o país, estava numa situação de estagnação e incapacidade de renovação. A transferência do Pavilhão para a UL [no ano passado] é uma grande oportunidade de transformar aquele edifício, de mostrar o trabalho que se faz na universidade, de projetar a universidade e a investigação e as universidades portuguesas, em geral.

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