Comerciantes e moradores em Alcântara apoiam protesto mas dizem que "não dará em nada"

Comerciantes e moradores em Alcântara, ponto de convergência, em Lisboa, da manifestação nacional convocada pela CGTP, disseram à Lusa que concordam com as razões do protesto, mas que consideram que ele "não vai dar em nada". A CGTP marcou para hoje uma jornada nacional de luta contra a exploração e o empobrecimento, que incluiu manifestações no Porto e em Lisboa.

Enquanto, ao fundo, o líder da central sindical, Arménio Carlos, discursava, em Alcântara, para uma multidão que a chuva ia dispersando, um responsável pelo talho da rua Prior do Crato lamentava os efeitos negativos que a manifestação teve no negócio.

"O trânsito está cortado, os transportes não circulam, as pessoas não vêm. O sábado, que já é um dia de negócio fraco, hoje foi ainda pior", disse à Lusa.

O talhante afirmou, contudo, que respeita o protesto e que concorda com as reivindicações que lhe dão forma: "Tudo isto tem uma causa. Todos temos de lutar. Só tenho dúvidas de que isto dê algum resultado", acrescentou.

Poucos números acima, na mesma rua, o empregado da sapataria reiterou a opinião do vizinho talhante. Vasco Neves disse que a manifestação não trouxe clientes - "porque quem vem manifestar-se não vem comprar" - e, por ter implicado cortes nos acessos à freguesia, "fez com que, mesmo os moradores, não tivessem saído de casa".

O protesto - e ainda que, salientou, "aconteça por razões que todos compreendem e apoiam" - acabou por "complicar um pouco a vida das pessoas, e talvez acabe também por não ter grande efeito".

Entre o talho e a sapataria, três mulheres, com idades entre os 66 e os 72 anos, moradoras de décadas em Alcântara, conversavam. À Lusa disseram que não tinham vindo participar no protesto. Saíram de casa para "coscuvilhar a manifestação".

Apesar de não serem parte ativa nesta marcha, concordam com as razões que hoje trouxeram milhares de pessoas para a rua em todo o país. Ainda assim, estão convencidas de que "isto não adianta nada", e que, "por este andar", nem os seus netos vão poder "ter uma vida como deve ser".

Teresa Santos, "alfacinha de gema", uma das duas mais novas, falava pelas três, que assentiam a cada ideia: "Isto assim é só palavras. Gasta-se dinheiro no gasóleo, e é só. Nada impede que os credores fechem a torneira do dinheiro. Isto já vem de há muito tempo. O país gastou de forma descontrolada. Agora, sem uma revolução não se vai a lado nenhum", defendeu.

No discurso em Alcântara, o secretário-geral da CGTP, Arménio Carlos, anunciou uma ação de protesto contra o Orçamento de Estado, a realizar no dia 01 de novembro junto da Assembleia da República, em Lisboa.

"No próximo dia 01 de novembro, dia feriado que nos foi roubado e que coincide coma primeira votação na generalidade do Orçamento de Estado, lá estaremos, de novo, na Assembleia da República, às 10:00 horas, para rejeitar a proposta de Orçamento, para exigir a demissão do Governo e a realização de eleições quanto antes", disse Arménio Carlos aos manifestantes concentrados em Alcântara, em Lisboa.