Cidades do Centro e Sul sem recolha de lixo

As cidades do Seixal, Moita, Amadora e Coimbra ficaram hoje sem recolha de lixo devido à greve, que contabilizou uma adesão de 100 por cento

"A greve nacional da Administração Local deixou ao início da noite sem recolha de lixo as principais cidades onde este serviço se realiza normalmente aos domingos, indiciando uma forte adesão na maioria dos serviços camarários, empresas municipais, bombeiros profissionais e outros serviços ligados a este sector", refere o STAL num comunicado.

A organização sindical agendou para a noite de domingo uma greve nacional, destinada a mostrar publicamente o desagrado dos trabalhadores relativamente "às ingerências do governo na autonomia do Poder Local" e a reivindicação de "salários justos".

Relativamente ao primeiro ponto, o STAL acusa o Governo de exercer "chantagem" junto das autarquias para evitar que estas aprovem medidas de valorização dos trabalhadores camarários, além das "tentativas de condicionamento das negociações" em torno da contratação colectiva.

Apesar da generalidade dos serviços de recolha de resíduos sólidos não se realizar nas noites de domingo, por constituir habitualmente a folga dos trabalhadores do sector, o sindicato reivindica uma adesão de "100 por cento ou valores aproximados" no Seixal, Moita, Amadora, Coimbra.

Por outro lado, nos serviços de higiene urbana de Setúbal o valor situa-se nos 63 por cento, enquanto que em Loures é contabilizado cerca de 50 por cento de adesão.

"Já no sector dos transportes, os serviços de manutenção dos Transportes Urbanos de Braga estão totalmente paralisados", sublinha o comunicado.

Ao longo do dia de hoje deverão ainda ser realizados outros protestos, nomeadamente paralisações nos transportes urbanos municipais e escolares, assim como na generalidade dos serviços de higiene urbana.

"Também outros sectores como bombeiros profissionais, associações humanitárias de bombeiros voluntários e empresas municipais serão afetados por esta greve", conclui o comunicado.

A greve organizada pelo STAL deverá prolongar-se durante a noite de hoje e madrugada de terça feira.

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.